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Coronavírus: Óbitos em casa disparam em SP e já superam todo o ano de 2019

15/04/2020: paciente com máscara de proteção chega de ambulância em hospital de Recife - Veetmano Prem/Fotoarena/Estadão Conteúdo
15/04/2020: paciente com máscara de proteção chega de ambulância em hospital de Recife Imagem: Veetmano Prem/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

09/06/2020 17h50

Resumo da notícia

  • Até o início de junho, capital paulista registrou 2.960 mortes em casa
  • No ano de 2019, foram 2.541 mortes nesta condição, diz secretaria
  • Diretor do Samu-SP afirma que ocorrências aumentaram e cita receio da população
  • Secretário de Saúde do Maranhão critica orientação inicial do Ministério da Saúde
  • Mesmo com sintomas leves, busque unidades de saúde, recomenda diretor do Samu-SP

O número de óbitos em domicílio na capital paulista deu um salto neste ano na comparação com o ano passado. Do início de 2020 até o dia 4 de junho, foram registradas 2.960 mortes em casa, de acordo com dados da Secretaria Municipal de Saúde, organizados a pedido do UOL.

Enquanto isso, 2.541 óbitos foram registrados durante todo o ano de 2019. Em outras palavras, considerando apenas os cinco primeiros meses deste ano, o total parcial já é 16,5% maior que em todo ano passado. Os números referem-se a causas variadas, incluindo covid-19.

De acordo com especialistas ouvidos pelo UOL, houve um aumento no número de óbitos em casa por causa da covid-19, mas não apenas pelos doentes da virose. Isso ocorre pelo medo de contrair a doença em hospitais e pela falta de acesso à saúde uma vez que os serviços estão saturados.

"Aumentou o número de atendimentos que fazemos de pessoas que morreram em suas residências. Com medo de contrair o coronavírus, retardaram a ida ao hospital com receio de contrair a doença e acabaram falecendo em casa", afirma Francis Fujii, diretor médico do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) em São Paulo.

"Registramos um aumento significativo nos chamados por parada cardiorrespiratória de pacientes com doenças cardíacas e com quadros crônicos, como câncer. Ou mesmo de AVC [acidente vascular cerebral]. Caso tivessem ido ao pronto-socorro, o desfecho poderia ser diferente", analisa.

A avaliação é compartilhada por André Nathan, pneumologista do Hospital Sírio-Libanês. O médico diz ainda que hospitais particulares da capital paulista reduziram seu atendimento no pronto-socorro não apenas com a diminuição no número de acidentes de trânsito, decorrência da quarentena, mas também de enfermidades.

"Pacientes estão buscando ajuda apenas em casos mais graves, o que faz com que apareçam quadros mais evoluídos das doenças", alerta.

Infectados com covid-19, mas sem saber disso

Segundo Fujii, parte das mortes em casa também é de pacientes com covid-19 que, por não saberem que tinham a doença, evitaram a ida ao pronto-socorro com medo de contraí-la.

"Acabam ficando e se tratando como se fosse uma gripe forte, não percebendo sua baixa oxigenação [uma das características da doença]. Morreram de repente, devido à progressão rápida da doença", explica.

Responsáveis pelo combate à pandemia nos estados reclamam que as orientações dadas pelo Ministério da Saúde no início da crise contribuíram para agravar esse quadro.

Um exemplo é o Maranhão, estado com mais de mil mortos na pandemia. "Tínhamos a orientação de pedir para que portadores de sintomas leves ficassem em casa, o que foi equivocado. A doença evolui muito rapidamente e isso levou a uma grande quantidade de óbitos em casa nos primeiros meses." A avaliação é de Carlos Lula, secretário estadual de Saúde do Maranhão.

De acordo com ele, o sistema hospitalar maranhense não chegou a colapsar, mas chegou muito perto. A partir dessa constatação, a orientação mudou, e abriram ambulatórios para casos mais leves — o que, segundo ele, ajudou a reduzir a mortalidade.

Hospitais sobrecarregados geram receio

Outro fator que tem colaborado para o aumento no número de óbitos em casa é a sobrecarga do sistema público de saúde. Há três meses, quando a crise ainda começava no Brasil, epidemiologistas afirmaram que poderia ocorrer um aumento no número de óbitos por outras doenças e acidentes devido à sobrecarga ou colapso do sistema de saúde com os casos de covid-19.

Ou seja, unidades de pronto-atendimento e hospitais públicos - que, normalmente, já têm dificuldade em processar toda a demanda - poderiam travar com a falta de leitos e de recursos humanos para atender a todos.

A razão pela qual a Organização Mundial da Saúde recomenda as políticas de isolamento e distanciamento social, inclusive, não é evitar o contágio da população, mas que ele ocorra de forma fracionada. Não como tsunami, mas em prestações, a fim de que o sistema de saúde possa atender os pacientes com covid-19 e outras doenças.

"Por conta da pandemia ter saturado o serviço de saúde, as pessoas estão buscando menos a rede hospitalar. Acreditam que não vão ter atendimento e acabam 'esticando' os sintomas", afirma o pneumologista André Nathan.

"Dias em guerra" em Manaus

Em abril, os hospitais de Manaus atingiram a superlotação. Ambulâncias rodavam a cidade com pacientes até que surgisse um leito. O Samu do município chegou a fazer 102 ocorrências por covid-19 em um só dia no pico da crise. Agora, estão atendendo de 10 a 15.

"Nós estamos com 84 dias de guerra. A prefeitura contabilizou, hoje, 40 sepultamentos, sendo que a média histórica está entre 25 e 30. No pior momento, chegamos a 162", afirmou ao UOL Marcelo Magaldi Alves, secretário municipal de Saúde de Manaus.

De acordo com dados fornecidos pela secretaria, o número de falecimentos em domicílio em Manaus foi de 548 em abril (dos quais 206 por covid confirmada ou suspeita) e 401 em maio — dos quais 396 relacionados à covid.

"Nossa população não respeitou o isolamento social e o próprio governo federal não estimulou isso, que era a principal medida para conter o vírus", afirma. "Doente, a população demorou para procurar atendimento." Alves destaca que, apesar dos hospitais lotados, havia 18 unidades básicas de referência para atender paciente infectados pelo novo coronavírus.

Queixas sobre recursos da União

A falta de estrutura de saúde também foi agravada por um nó logístico, principalmente nos estados com menos recursos, que dependem da União em casos de calamidade pública.

"A atuação de Brasília tem sido uma sucessão de desastres. Prometeram muito e entregaram pouco. O Maranhão recebeu 40 respiradores e 20 kits de UTI [que incluem leitos]. Mas o estado, até agora, já abriu 450 novos leitos. Se dependêssemos do ministério, entraríamos em colapso", diz o secretário Carlos Lula.

O diretor médico do Samu de São Paulo recomenda que diante de sintomas, não só de covid-19, mas também de outras doenças, as pessoas procurem uma Unidade Básica de Saúde - nos casos mais leves - e Unidades de Pronto Atendimento (UPA) ou pronto-socorros de hospitais, nos casos mais graves.

Nos locais em que o sistema de saúde colapsou, contudo, a única alternativa é procurar outra cidade, com o apoio do poder público, se disponível.

Leonardo Sakamoto