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"A investigação sobre Queiroz precisa chegar em Jair Bolsonaro", diz Freixo

Flavio Bolsonaro e Fabrício Queiroz fazem sinal de arminha - Reprodução/Instragram
Flavio Bolsonaro e Fabrício Queiroz fazem sinal de arminha Imagem: Reprodução/Instragram
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

21/06/2020 10h54

"Queiroz, amigo de longa data de Bolsonaro e trazido por ele para trabalhar com o filho Flávio, é quem executava o esquema de desvio de recursos públicos. A família de políticos é absolutamente centralizada pelo pai, que despachava do gabinete do filho, na Assembleia Legislativa do Rio, às sextas. E Jair não sabia de nada que se passava ali?"

O questionamento é do deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ). Ele afirmou à coluna que a investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro sobre os desvios a partir dos salários de servidores nos gabinetes da família Bolsonaro precisa envolver também o presidente da República.

Em sua avaliação, Jair Bolsonaro, que tem ascendência sobre os filhos e sobre o ex-assessor, pode ser peça chave para a resposta.

"A filha de Queiroz, Nathália, estava lotada no gabinete do próprio Jair, em Brasília, por dois anos. Trabalhava, ao mesmo tempo, como personal trainer no Rio do Janeiro. E 80% do salário dela ia para Queiroz", afirmou. "O presidente não sabia disso?"

Antes de trabalhar para Jair, ela esteve lotada no gabinete de Flávio, na Alerj, de 2007 a 2016. Após a prisão do pai, na última quinta (18), postou em uma rede social que seu "coração está despedaçado". Espera-se que ela contribua com as investigações por não ter o mesmo nível de lealdade que o pai com os antigos empregadores e estar também na mira dos investigadores.

Freixo também afirma que Jair Bolsonaro deve dar explicações ao país sobre o cheque de R$ 24 mil depositado por Queiroz na conta da, hoje, primeira-dama Michele Bolsonaro.

Assim que a informação veio a público, em dezembro de 2018, detectada pelo Coaf junto com outras "movimentações atípicas" nas contas do faz-tudo da família, Jair Bolsonaro afirmou que isso era a devolução de parte de um empréstimo de R$ 40 mil que fizera a ele.

"Ele disse ter emprestado esse valor em um ano no qual Queiroz movimentou mais de um milhão na conta. Como o dinheiro foi de Jair para Queiroz? Como voltou? Tem algum tipo de comprovante ou o presidente também fez o empréstimo em dinheiro vivo?"

Para o deputado federal, a partir do momento em que o ex-assessor passou a ser investigado em um esquema de desvio de recursos públicos, Bolsonaro tem que provar a origem do valor. "Não pode haver risco do dinheiro que foi para alguém que é hoje presidente da República ser oriundo de um esquema criminoso", avalia.

Ainda sobre o uso de grandes quantias em espécie, Marcelo Freixo defende que é importante saber a origem do dinheiro que Fabrício Queiroz usou para pagar mensalidades das filhas de Flávio Bolsonaro. Para ele, a investigação deve apontar se a origem foram as chamadas "rachadinhas" ou recursos provenientes do miliciano Adriano da Nóbrega, chefe do Escritório do Crime - o maior e mais temido grupo de matadores de aluguel do Rio de Janeiro.

O MP-RJ identificou 53 boletos, representando R$ 153 mil, pagos com dinheiro vivo que não saiu de rendimentos comprovados pelo, hoje, senador Flávio e sua esposa, Fernanda Bolsonaro. O mesmo se repetiu no pagamento do plano de saúde da família - foram mais de 100 boletos, correspondendo a cerca de R$ 260 mil. O senador afirma que os recursos tiveram origem lícita e irá comprovar no processo.

A mãe e a ex-esposa de Adriano estavam lotadas no gabinete de Flávio e serviam como laranjas para receber e repassar os recursos a Queiroz, segundo o MP. De acordo com o deputado federal, a investigação precisa descobrir se o dinheiro que voltava a Queiroz via Adriano era dinheiro de outro tipo de organização criminosa. Freixo foi presidente da CPI que investigou as milícias no Rio de Janeiro quando deputado estadual.

O chefe do Escritório do Crime foi morto em uma ação que tentou prendê-lo, em 9 de fevereiro deste ano, no interior da Bahia.

"É necessário colocar tudo na mesa, com investigações que atinjam a todos. Bolsonaro não é essa figura honesta que tenta dizer que é. Honesto é o povo que está morrendo na pandemia", afirma.

Leonardo Sakamoto