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Leonardo Sakamoto

Pastor Everaldo e pastora Flordelis lembram que líder político não é santo

Jair Messias sendo batizado pelo pastor Everaldo, no rio Jordão, em Israel, no dia 12 de maio de 2016 - Reprodução
Jair Messias sendo batizado pelo pastor Everaldo, no rio Jordão, em Israel, no dia 12 de maio de 2016 Imagem: Reprodução
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

29/08/2020 13h00

Duas operações da polícia e do Ministério Público realizadas no Rio de Janeiro, nesta semana, estamparam os nomes de dois políticos-pastores, ou pastores-políticos, nas manchetes criminais: o presidente nacional do PSC, Everaldo Pereira, e a deputada federal Flordelis dos Santos (PSD).

Após investigações da Polícia Civil e do MP-RJ apontarem a deputada como mandante do assassinato do marido, o pastor Anderson do Carmo, uma operação prendeu cinco filhos e uma neta do casal na segunda (24). Flordelis não foi para a cadeia por ter imunidade parlamentar, mas - para garantir - já pediu aos colegas da Câmara que "pelo amor de deus" não cassem seu mandato.

Anderson foi morto com 30 tiros em junho de 2019. A polícia aponta que ela estava insatisfeita com a forma como ele cuidava do dinheiro do "Ministério Flordelis" - fundado por ela mesma. Acabou indiciada por homicídio triplamente qualificado, tentativa de homicídio, falsidade ideológica, uso de documento falso e organização criminosa majorada.

Investigações apontam que a deputada estava colocando arsênico na comida, desde 2018, para tentar envenenar Anderson - que, antes de ser seu marido, já havia sido seu filho adotivo e depois companheiro de sua filha. Naquele ano, Flordelis foi mulher mais votada para deputada federal no Rio de Janeiro.

Mesma "sorte" não teve o pastor Everaldo. Ele foi preso, nesta sexta (28), junto com dois filhos, em operação da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República, por participar de um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro que seria chefiado pelo governador do Rio. No mesmo dia, Wilson Witzel (PSC) foi afastado do cargo por decisão do Superior Tribunal de Justiça.

O esquema envolve pagamento de propinas por empresas para obter contratos com a área de saúde do Estado. Vale sempre lembrar que isso se torna ainda mais grave pelo fato doe o país estar passando por uma pandemia assassina.

Everaldo esteve sempre aliado ao poder e, portanto, a sua história se confunde com a história das negociatas fluminenses. Já foi aliado de Anthony Garotinho e Eduardo Cunha. Comandava a Cedae na gestão Witzel (Companhia de Águas e Esgotos do Estado do Rio), em meio às acusações de que o dinheiro ia para o ralo enquanto a água cheirava a podre. Foi quinto colocado na eleição presidencial de 2014, mas é melhor lembrado pela acusação da Lava Jato de que teria recebido R$ 6 milhões da Odebrecht para dar uma mão a Aécio Neves (PSDB) em um debate presidencial na TV.

Filiou Bolsonaro no PSC, em março de 2016, sendo um dos principais incentivadores de sua candidatura à Presidência. Dois meses depois, batizou-o nas águas do rio Jordão, em Israel - o que ajudou o católico Jair Messias a conseguir espaço em igrejas e programas evangélicos na sua escalada ao Planalto. Depois, trouxe Wilson Witzel para a política, praticamente inventando a candidatura de um então desconhecido juiz federal.

Liderança religiosa não é salvo-conduto ético e moral

Por que eu levantei a capirava de ambos? Para expor que não é por que a pessoa é uma líder religiosa que será honesta e terá caráter. Da mesma forma, não ela é por que ela é que significa que não terá.

Apesar disso, muitos usam seu posto de guia espiritual em uma comunidade em nome de seus interesses pessoais, seja para permitir a conquista de mais poder político para si, seja para satisfazer seus prazeres da carne. Usam seu status como credencial de que suas ações são puras e sinceras. Mas podem mandar matar e lavar dinheiro pelas costas.

Bem, até aí, nenhuma novidade, uma vez que setores da Igreja Católica fazem desde a antiguidade. O lembrete é importante, contudo, pois já passou da hora de separamos fé e política. É difícil, pois é quentinho alguém nos dizer o que devemos pensar e fazer. Mas já passamos do tempo de atingir maturidade como sociedade. E vergonha na cara.

A ministra Damares Alves disse que a deputada "enganou a nação inteira". E que estava indignada por ela ter "usado a fé, usado os irmãos, a igreja".

Isso é um tanto quanto irônico. O Brasil é um Estado laico em teoria, na prática há uma teocracia sendo construída por dentro dele, comendo e subjugando instituições. Temos um governo que não vem a público apoiar o direito ao aborto legal de uma menina de dez anos, estuprada sistematicamente pelo tio por mais da metade de sua vida. Mas temos denúncias de representantes do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos de tentar interferir no seu direito à dignidade. Ou seja, acusados de torturar em nome de Deus.

Igrejas são atores políticos e devem ter sua voz ouvida na defesa do interesse de suas comunidades. O problema é que isso tem sido usado para o massacre do direito de minorias por pessoas que subvertem a fé honesta de terceiros em sua busca pessoal de poder.

Os exemplos do pastor Everaldo (batizou um presidente e ajudou a eleger um governador) e da pastora Flordelis (deputada federal mais votada do Rio) mostram como há uma cruzada, na acepção medieval da palavra, em curso, tendo o Rio de Janeiro como epicentro. O Estado tem de tudo: de Marcelo Crivella, bispo da Universal eleito prefeito que manda recolher gibi com ilustração de um beijo gay em Bienal do Livro para ganhar votos com os fundamentalistas, até traficante que ataca terreiros em nome da própria salvação.

Mas os exemplos de ambos também mostram que o sábio de barba que pregava a igualdade de direitos (neste caso Jesus de Nazaré, não Karl Marx), se andasse por aqui novamente, seria chamado de comunista e subversivo, cuspido na rua e morto por alguns que se autoproclamam representantes de Jeová na Terra.

Pois um sujeito que disse "Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus", conforme descrito no Evangelho de Mateus 22:21, levaria porrada por aqueles que acreditam que o tal "reino dos céus" começa com a conquista do comando do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e, principalmente, do Supremo Tribunal Federal. Ainda mais em um país em que o presidente da República diz que indicará para a corte um ministro "terrivelmente evangélico" e não um ministro "terrivelmente competente".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Leonardo Sakamoto