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Leonardo Sakamoto

Não há corrupção, diz Bolsonaro. Queiroz deu 89 mil razões para duvidar

               - ABR
Imagem: ABR
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

07/10/2020 21h44

"Eu não quero acabar com a Lava Jato. Eu acabei com a Lava Jato, porque não tem mais corrupção no governo", disse Jair Bolsonaro, em um evento nesta quarta (7).

A declaração ocorre em meio aos frondosos laranjais do Ministério do Turismo, passando pela tempestade de emendas parlamentares que ajudou na aprovação da Reforma da Previdência até as caudalosas e inexplicadas "rachadinhas" envolvendo a primeira-família.

No contexto de pós-verdade, abraçada como instrumento de governo, os fatos objetivos são cada vez menos importantes do que os apelos às emoções. Principalmente para aqueles 12% a 16% de seguidores fanáticos do presidente. Foi assim durante toda pandemia de coronavírus, quando Bolsonaro criou uma realidade paralela e nela colocou seu povo escolhido. Seu naco mais radical acha que há uma conspiração chinesa junto com a elite global para implementar chips através de uma vacina falsa e controlar as mentes das pessoas pelas antenas de 5G.

Esse mesmo pessoal deve acreditar quando o governo diz que acabou a corrupção... no governo.

Formalmente, não é o presidente quem pode decretar o fim da operação Lava Jato, mas a Procuradoria-Geral da República. Vale lembrar, contudo, que Augusto Aras, chefe da instituição, foi indicado por Jair para o cargo fora da lista tríplice dos mais votados pela categoria. E tem atuado para o encerramento da operação como a conhecemos.

Em um país polarizado em que reina o maniqueísmo tosco, criticar o atropelamento de direitos constitucionais por parte da Lava Jato é ser visto como apoiador da corrupção. Ao mesmo tempo, criticar a maneira pela qual o combate à corrupção está sendo atropelado por alguns atores que são alvo de investigação é ser visto como apoiador dos comportamentos e métodos ilegais adotados pela força tarefa. O que é péssimo para o país.

Dito tudo isso, ressalte-se que a declaração de hoje do presidente da República ocorre em meio a um processo muito maior de emparedamento de instituições.

Bolsonaro interferiu na Polícia Federal, no Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), na Receita Federal, no Ibama, no ICMBio, na Funai e na Procuradoria-Geral da República, como já dito acima. Desde que assumiu o cargo, vem atuando para engolir instituições de monitoramento e controle em nome de seu projeto de poder e da proteção dos interesses de sua família e de seus amigos. Deixou claro isso na famosa reunião ministerial de 22 de abril, cujo vídeo veio a público.

Diz que acabou com a corrupção, mas tenta nublar qualquer investigação que analise evidências de práticas irregulares por parte da primeira-família, como, por exemplo, os desvios de recursos públicos do gabinete do então deputado estadual e, hoje, senador Flávio Bolsonaro. Diz que acabou com a corrupção, mas ameaça de meter a porrada na boca de um jornalista que pergunta a razão de Queiroz ter depositado R$ 89 mil na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

O projeto de país do clã é um governo populista autoritário apoiado por setores da extrema-direita e parte do empresariado. Nesse plano, as instituições que não podem ser domesticadas, são consideradas inimigas. Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal foram alvos de pedidos de fechamento por parte de seguidores fanáticos do presidente. Ele mesmo chegou ao despautério de discursar em um ato que exigia um novo Ato Institucional número 5 e um golpe militar no dia 19 de abril.

Após ações contra ele e seus aliados avançarem no STF, foi aconselhado a parar de esticar a corda. Abraçou o fisiológico centrão, de onde originalmente saiu, e tornou-se BFF de alguns ministros do Supremo, aceitando recomendações para baixar a fervura. Com isso, a menos que surja algo novo, o impeachment ficou tão complicado, hoje, quanto comprovar vida em Vênus.

Como já disse aqui, há um componente revolucionário no bolsonarismo, que vai derrubando barreiras e avançando aos poucos sobre as instituições. Bolsonaro percebeu que pode fazer muita coisa, pois está defendendo os interesses estratégicos de uma parte da elite - que aceita o diabo com covid-19, mas não a esquerda - e de setores políticos que, sob qualquer governo, pilharam e mandaram no Brasil. Precisa só equilibrar os interesses, ceder um pouco e afastar os lunáticos. Ao menos, por enquanto.

Parte da sociedade gosta do autoengano de que ele está sendo totalmente contido pelos freios e contrapesos da República porque uma suposta pauta reformista avança aos trancos. Dessa forma, rifam barato o país.

Vamos vendo, assim, instituições sendo dobradas às necessidades de uma família e seus aliados. E muita gente será cúmplice disso.