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Leonardo Sakamoto

"Parem a contagem!": Estratégia de Trump atinge crença no sistema eleitoral

                - JIM WATSON, SAUL LOEB / AFP
Imagem: JIM WATSON, SAUL LOEB / AFP
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

05/11/2020 12h40

Enquanto a totalização dos votos avança nos seis últimos estados, o presidente Donald Trump tem emitido declarações para desacreditar o resultado da eleição nesses locais. "Parem a contagem!", postou em sua conta no Twitter, na manhã desta quinta (5), ecoando os gritos de seus apoiadores que protestam em locais como a Pensilvânia. Democratas rebatem, pedindo fé no sistema eleitoral, mas os danos causados pela estratégia presidencial podem ajudar a erodir instituições norte-americanas.

Nesse estado, votos enviados por correio, maioria do que está sendo contabilizado agora, podem dar a vitória a Joe Biden. Durante a campanha, o democrata incentivou essa forma de voto, permitida pela legislação, para evitar filas e aglomeração por conta da pandemia de coronavírus.

Ironicamente, no Arizona, onde Biden está na frente, mas ainda faltam 14% dos votos a serem apurados, os apoiadores de Trump pedem para que a análise de 450 mil votos ainda não contabilizados continue e seja feita de forma mais rápida. Republicanos acreditam que o estado pode virar a favor do presidente. A questão, portanto, não são as regras do jogo, mas a necessidade de que elas funcionem de acordo com as necessidades de quem está no poder.

Trump não quer que a contagem simplesmente pare em todo o lugar, mas especialmente na Pensilvânia - se perder lá, acabou. Até porque, de acordo com a apuração no momento em que ele postou a declaração, se ela parasse em todo o país, Joe Biden seria o presidente eleito.

Na noite desta quarta (4), ele afirmou, em sua conta no Twitter, que "o dano já foi feito à integridade de nosso sistema e à própria eleição presidencial". Com isso, alimentou ainda mais a revolta de parte de seus seguidores e planta a dúvida sobre a legitimidade da vitória de seu adversário.

Tentando acalmar os ânimos, Biden tem feito discursos buscando a unidade nacional. Também na noite de quarta, tuitou: "Mantenham a fé no processo e uns nos outros. Juntos, vamos vencer isso".

A candidata a vice em sua chapa, a senadora Kamala Harris, também foi ao Twitter pedir fé no processo eleitoral. "Os americanos devem ter fé no processo de votação e ter o direito constitucional de ter seus votos legítimos contados. Essa proposição simples é a pedra angular da democracia americana", disse.

A alegação de fraude em uma votação, colocando em dúvida o sistema eleitoral, sem a apresentação de provas que embasem a denúncia, como vem fazendo o presidente Trump, pode colocar em risco não apenas a eleição e o próximo governo, como a própria democracia. No caso dos Estados Unidos, que se coloca como guardião de outras democracias, o impacto pode ser global.

"A confiança coletiva da sociedade em seu sistema eleitoral e de votação é essencial para a democracia", destacou à coluna Fernando Neisser, doutor em Direito Penal pela Universidade de São Paulo, advogado especialista em direito eleitoral e um dos fundadores da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep). "Quem atenta contra esses alicerces, sem quaisquer elementos concretos a embasar as acusações atenta contra o próprio Estado."

Para ele, acusações vazias de fraude levam ao descrédito do sistema. E se o sistema não funciona, por que eu devo votar? Em um país em que o voto não é obrigatório, como os EUA, além dos conflitos que isso pode originar no curto prazo, temos a redução da participação popular, enfraquecendo as instituições e reduzindo sua legitimidade, no médio prazo. E, no longo, o surgimento de outras figuras que passam ao largo das instituições, falando apenas com o grupo social que o apoia, o que abre espaço para o esfarelamento da própria federação.

Fake news produzidas no Brasil ajudam a desinformar eleitores nos EUA

O presidente Donald Trump disse, na noite de terça, que a contabilização de votos enviados pelo correio são uma fraude às eleições, autoproclamou-se vencedor e disse que iria à Suprema Corte para que não fossem considerados. Mais do que uma vitória jurídica, espera "melar o jogo" se perder.

O comportamento do presidente tem sido respaldado por notícias falsas, boatos e fraudes que circulam pelo Twitter, Facebook e por aplicativos de mensagens. Histórias como o aparecimento, do nada, de mais de 100 mil votos a favor de Joe Biden ou a existência de votos de Trump, ainda fechados, encontrado no lixo dos correios.

Em um país com fortes comunidades de falantes de outras línguas, não é apenas o conteúdo em inglês que pede atenção. O Brasil e o restante da América Latina também contribuem para aumentar o entendimento de que democratas estão tentando passar a perna nos eleitores - apesar de não haver provas disso.

"Comentaristas brasileiros estão ajudando a colocar em descrédito o sistema eleitoral americano", avalia à coluna Pablo Ortellado, professor de Polícias Públicas da Universidade de São Paulo e coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital.

Segundo ele, há um eleitorado na Flórida, em Massachussets, em Nova York, de tamanho razoável, em língua portuguesa, que está recebendo desinformação sobre a campanha eleitoral.

Pessoas próximas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) já foram apontadas, por veículos de comunicação brasileiros, por compartilhar informações falsas sobre a apuração nos EUA. O próprio Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, compartilhou publicação que apontava, sem provas, fraude a favor de Biden.

"Ao mesmo tempo, na Flórida, cidadão norte-americanos de origem cubana ou venezuelana podem estar recebendo o mesmo tipo de conteúdo produzido em outros locais da América Latina, conteúdo que ameaça a confiança pública no sistema eleitoral. Isso preocupa muito", afirma.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL