PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

Na véspera do Dia da Consciência Negra, outro negro é morto em supermercado

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

20/11/2020 09h40Atualizada em 22/11/2020 21h52

Para que não esqueçamos o porquê de um Dia da Consciência Negra, celebrado nesta sexta (20), João Alberto Silveira Freitas, negro, 40 anos, foi assassinado em uma unidade do supermercado Carrefour, na zona norte de Porto Alegre, na noite de quinta.

Após uma discussão com uma funcionária do caixa, ele foi levado ao estacionamento por um segurança e um policial militar temporário, brancos. Vídeos mostram sendo derrubado, imobilizado com o joelho do agressor em seu pescoço, e espancado até a morte. Os dois foram presos em flagrante por homicídio com a intenção de matar. O supermercado fechou a loja e afirma ter rompido o contrato com a empresa de segurança.

Se você tem a impressão que essa cena já aconteceu antes, está correto. Com algumas variações, ela se repete, e repete, e repete, já fazendo parte da paisagem de um país definido pelo racismo em todos os níveis de suas relações sociais. A diferença é que, nos últimos anos, as agressões, que sempre ocorreram, podem ser assistidas por milhões nas telas de seus celulares. Isso ajuda a diluir a violenta mentira do "não existe racismo" ao passo que faz com que muitos se reconheçam no "já aconteceu algo semelhante comigo".

Não é a primeira vez que uma pessoa negra é morta ou torturada por seguranças de um supermercado. E, considerando que o Brasil é um capataz que espanca e mata negros em estabelecimentos comerciais, mas também nas delegacias e periferias, e parece apreciar o seu trabalho, não será a última.

Pois isso lembra uma história. No dia 14 de fevereiro do ano passado, Pedro Henrique de Oliveira Gonzaga, 19 anos, foi morto por um segurança do supermercado Extra, do Grupo Pão de Açúcar, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Ao "conter" o jovem negro, ele deu uma gravata e jogou seu peso sobre ele. No vídeo, que circulou pelas redes sociais, testemunhas alertaram que Pedro estava "sufocando" e ficando "roxo", mas a sessão de tortura continuou. Com parada cardiorrespiratória, foi socorrido por bombeiros e não resistiu. A mãe do rapaz presenciou a cena. Pedia para o segurança parar.

Que lembra outra história. Em julho de 2019, um jovem negro de 17 anos, catador de materiais recicláveis, foi despido, amordaçado e chicoteado por dois capatazes após tentar um furto barras de chocolate de uma unidade do supermercado Ricoy na periferia de São Paulo. O chicote é cinismo histórico puro. O mercado disse que repudiava o fato e que os seguranças eram de uma empresa terceirizada - como sempre.

O caso ganhou as redes sociais após os próprios algozes gravarem imagens da sessão de tortura, copiando os militares norte-americanos durante sessões de tortura da prisão de Abu Ghraib, no Iraque. Naquela ocasião, "cidadãos de bem" norte-americanos vibraram com as cenas. Por aqui, "cidadãos de bem" brasileiros não deixaram por menos.

Que lembra mais uma história. Em agosto de 2009, Januário Alves de Santana foi acusado de estar roubando um automóvel em uma loja do Carrefour, em Osasco (SP). Por isso, foi submetido a uma sessão de tortura de cerca de 20 minutos. "O que você fazia dentro do EcoSport, ladrão?", perguntaram, enquanto cinco pessoas davam chutes, murros, coronhadas, na sua cabeça, na sua boca. O carro era dele, comprado em suadas 72 vezes. Na cabeça dos seguranças do supermercado, um negro não poderia ter carro de bacana branco. Se o Carrefour tivesse aprendido algo com 2009, a história não teria se repetido com um desfecho pior em 2020.

Que lembra ainda outra história. Em agosto deste ano, o entregador Matheus Fernandes foi trocar o relógio que havia comprado para o pai na loja Renner, do Shopping Ilha Plaza, no Rio de Janeiro. Arrancado do local por dois homens, foi acusado de roubar a mercadoria, imobilizado na escada de emergência e agredido. Uma pistola foi apontada para ele e só não ocorreu o pior porque um amigo chamou outras pessoas. Tudo foi gravado.

Matheus estava orgulhoso que tinha comprado o presente com seu próprio dinheiro. "Todo dia entro no shopping para trabalhar. Agora, só porque eu sou preto, eu não posso ir lá para me divertir?", perguntou.

As histórias poderiam ser diferentes se a cor da pele também fosse. Mas preferimos dizer que não, até para dormirmos mais tranquilos à noite, negando o preconceito que nos impregna da epiderme até os ossos. E seria ótimo para a consciência dos brasileiros se fossem apenas supermercados os locais onde esse tipo de assassinato acontecesse, mas eles ocorrem em qualquer espaço público, pelas mãos do Estado, de empresas, da população.

Em julho de 2015, um homem negro de 29 anos foi linchado por moradores do Jardim São Cristóvão, em São Luís (MA). Segundo a Polícia Civil, ele havia tentado assaltar um bar, quando foi rendido, amarrado nu em um poste e agredido até a morte com socos, chutes, pedradas e garrafadas. O rapaz poderia ser entregue à polícia para ser devidamente processado e pagar pelo seu crime. Mas o pelourinho, que canta alto na alma de parte dos brasileiros, falou mais alto.

Assistir aos últimos momentos de João Alberto é relembrar do assassinato de George Floyd, homem negro que, em maio deste ano, foi estrangulado até a morte por um policial branco que se ajoelhou em seu pescoço durante uma abordagem por supostamente usar uma nota falsa em um supermercado, em Mineápolis, nos Estados Unidos. Isso desencadeou protestos antirracistas em todo o país.

Da mesma forma que a morte de Pedro Henrique lembra a de Eric Garner, um homem negro que estava vendendo cigarros de forma irregular em Nova York, por policiais brancos, no dia 17 de julho de 2014. Um deles deu uma chave de braço em Eric, que foi jogado ao chão e "contido" pela tropa. "Não consigo respirar, não consigo respirar!" - gritava o desespero de Eric, enquanto era asfixiado.

Sem demérito para outras pautas sociais e políticas, isso seria razão mais do que suficiente para ocuparmos as ruas do país em protesto. Mas, como já disse aqui, a morte e a tortura de pessoas negras pelas mãos do Estado ou da iniciativa privada não vale o arranhão deixado na caçarola por uma noite de bateção de panelas. Esse racismo não é um acidente, mas parte de um projeto que é violento com a população negra e pobre em nome da manutenção de nossos privilégios.

É claro que não há ordens diretas para metralhar todos os negros e pobres dadas pelo comando do poder público ou por empresas privadas. Mas nem precisaria. Ensinamos agentes de segurança em grandes metrópoles a odiar para garantir que tudo se mantenha como está.

Daí, quando professores decidem discutir, na sala de aula, a razão pela qual jovens negros são as principais vítimas entre milhares de mortes violentas anuais, de acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, defensores de uma Escola Sem Tutano ameaçam processar e morder, dizendo que isso é ser "ideológico".

Na opinião de uma parte considerável, não há racismo no Brasil. Apenas "coincidência" e "azar". Também não há genocídio de jovens pobres e negros das periferias pelas mãos da polícia, do tráfico, da milícia. "Eles é que estão no lugar errado e na hora errada, pois os 'homens de bem' seguem a lei e nada acontece com eles."

Como um país quer ser decente se uma barra de chocolate vale mais que a dignidade? Como pessoas apoiam, nas redes sociais, as cenas de espancamento e morte em supermercados e comemoram ações da polícia que matam jovens nas periferias, e depois enchem a boca para falar de democracia? Como querer construir um futuro se a maioria já nem se lembra de Ágatha, João Pedro e Marcos Vinícius, cujas mortes nos envergonharam no passado recente?

A única certeza é que a tortura e a morte de pessoas negras continuarão sendo permitidas na iniciativa privada num país que tornou a execução de negros por agentes públicos uma tarefa do cotidiano.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL