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Leonardo Sakamoto

João Alberto e George Floyd foram criticados por não morrerem em silêncio

                      - REPRODUçãO
Imagem: REPRODUçãO
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

23/11/2020 17h51

"Rapaz, sem cena." Pouco antes de morrer, João Alberto Silveira Freitas ouviu essas palavras enquanto gemia com a cara no chão do estacionamento de uma unidade do Carrefour, em Porto Alegre, na noite de quinta (19).

Ele havia sido espancado e asfixiado por um segurança e um policial brancos.

Em 25 de maio, George Floyd também agonizava com a cara no chão de uma rua de Mineápolis, nos Estados Unidos. Mas ainda teve forças para repetir que não conseguia respirar devido ao joelho do policial branco em seu pescoço.

"Então pare de falar, pare de gritar. É preciso muito oxigênio para falar", ouviu como resposta.

Freitas e Floyd foram criticados por avisar que estavam morrendo. Ou seja, por transgredir a ordem imposta por quem manda - o que, em nossos países, é mais importante que a própria vida.

Uma das obras-primas de Chico Buarque, a música "Construção", conta a história de um operário que caiu de uma obra. Ao final, ele "se acabou no chão feito um pacote flácido", "agonizou no meio do passeio público" e "morreu na contramão atrapalhando o tráfego".

A impressão aqui é a mesma.

As mortes de dois homens negros após tortura pelas mãos de agentes de segurança privados e públicos não são acidente, mas decorrente do racismo estrutural tanto do Brasil quanto dos Estados Unidos - que permeia e define nossas relações sociais. As duas últimas grandes sociedades escravistas mantém o preconceito como elemento definidor. E parece que têm orgulho disso.

Mas também são encaradas como um incômodo. E, talvez se não houvesse celulares com câmeras e 4G para viralizar vídeos e provocar indignação, seriam registradas como meros incômodos.

Tampouco é acidente a queda do operário da música, num dos países em que empresas cortam custos relativos à proteção da dignidade dos trabalhadores para lucrar mais. A proporção de negros entre os operários da construção civil é maior que sua proporção deles na sociedade. O mesmo vale para as trabalhadoras empregadas domésticas ou para as pessoas resgatadas do trabalho escravo contemporâneo.

"Rapaz, sem cena."

"Pare de falar."

Nós, não negros, aprendemos e ensinamos que temos o direito de definir vida e morte de outras pessoas. E acreditamos que isso significa apenas o cumprimento de nosso dever. Com a empresa, com a sociedade, com o preconceito que nos define. A fim de que cada um saiba exatamente seu lugar.

Como bem diz o verso da música que faz par com Construção: "Por me deixar respirar, por me deixar existir. Deus lhe pague".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL