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Leonardo Sakamoto

Eleito por mérito próprio, Covas está "livre" para governar longe de Doria

10 out. 2020 - Bruno Covas (PSDB) participa de entrevista coletiva ao lado do governador de SP, João Doria (PSDB), no Palácio dos Bandeirantes - ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
10 out. 2020 - Bruno Covas (PSDB) participa de entrevista coletiva ao lado do governador de SP, João Doria (PSDB), no Palácio dos Bandeirantes Imagem: ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

01/12/2020 01h56

João Doria falou por nove minutos exaltando a vitória do PSDB, na noite deste domingo (29), enquanto Bruno Covas discursou por sete. Parecia até que o vitorioso era o governador paulista.

A sensação de que alguém havia soprado as velas do bolo no lugar do aniversariante também foi sentida por aliados do prefeito reeleito.

O próprio Covas reforçou essa percepção pagando um "pedágio" ao nacionalizar seu discurso. Vale lembrar que a eleição de 2022 começou no PSDB no momento em que Doria costurou uma ampla aliança partidária, pensando não apenas na manutenção do Palácio do Anhangabaú, mas também na conquista do Palácio do Planalto.

Agora, Covas, que havia herdado o cargo deixado por Doria, conquistou-o no voto. O que muda o tipo de relação estabelecida.

Nomes como Jair Bolsonaro, João Doria e Lula estão radioativos a uma parte dos paulistanos - em ordem decrescente de desprezo, por diferentes razões. Por isso, como é amplamente sabido, o governador foi escondido praticamente a campanha inteira, reaparecendo de forma triunfal, na noite de domingo, para "lançar" a pedra fundamental de sua candidatura à Presidência.

Aposta que pode conquistar a simpatia da população através da imagem de bom gestor na pandemia num Estado que é uma fortaleza tucana.

É verdade que seu governo foi um contraponto racional ao terraplanismo biológico do presidente. Mas fez isso com estardalhaço, "apresentando um programa de auditório no Palácio dos Bandeirantes", nas palavras de um deputado do seu partido. Sem contar a guerra aberta com Bolsonaro, que cansou muita gente.

Mas não só. Doria mostrou que mesmo o combate à covid-19 pode estar sujeito às suas necessidades políticas. Chegou a acusar de fake news o alerta de que estava esperando o segundo turno para endurecer a quarentena diante do aumento nas internações em UTIs por covid. E, nesta segunda (30), dia seguinte à eleição, endureceu a quarentena.

Ou seja, o governador foi um fingidor, que fingiu tão completamente, que chegou a fingir que era verde a fase amarela que vivemos, infelizmente.

Para além do tempo de TV e da máquina da prefeitura, um tucano da velha guarda avalia que um tripé sustentou a campanha de Covas. O recall de seu sobrenome na periferia - muitos ainda lembram da presença de seu avô, Mário. Ele não ter feito nenhuma grande bobagem na pandemia (apesar de alguns erros, como a questão do rodízio ampliado), trabalhando em silêncio. Mas, principalmente, pela empatia que estabeleceu.

No início de setembro, lideranças de esquerda e centro-esquerda afirmaram à coluna que Covas demonstrou resiliência diante de um câncer agressivo, mantendo sua rotina de trabalho durante a pandemia, indo até morar em seu gabinete na prefeitura.

A imagem que ficou foi de uma pessoa jovem que, mesmo doente, estava preocupada com quem estava doente. Em uma sociedade majoritariamente cristã, o discurso do autossacrifício tem poder. Ainda mais em um lugar "traumatizado" por prefeitos que abandonaram o mandato em nome de seus interesses pessoais.

E isso foi explorado, de forma bem clara, já na primeira propaganda tucana veiculada na TV, o que ajudou a blindá-lo. A ponto de um jingle da campanha de Guilherme Boulos (PSOL), no segundo turno, girar em torno do refrão: "Não tenho nada contra o Bruno Covas, o que eu reclamo é do trabalho dele".

Tucanos críticos ao governador dizem que ele foi eleito apesar de Doria e não por causa dele. E que teve que carregar dois pesos extras.

Primeiro, as denúncias contra seu vice, Ricardo Nunes (MDB), que trouxe dores de cabeça. Aliás, na região onde o vereador tem escritório político, Cidade Dutra, na Zona Sul da capital, Guilherme Boulos (PSOL) ficou à frente de Covas.

E, segundo: a impopularidade de Doria - que, inclusive, foi um dos responsáveis pela escolha do vice.

Quando prefeito, Doria foi com sede ao pote e tentou desbancar seu padrinho, Geraldo Alckmin, da vaga do PSDB à Presidência em 2018. A obsessão acabou prejudicando seus planos. Disputou o governo, colando sua imagem à de Bolsonaro.

Agora, terá que passar uma imagem menos arrogante se quiser ter projeção nacional. Para tanto, lhe fará bem entender a importância da empatia na qual surfou Covas.

Enquanto isso, um tucano otimista espera que Bruno pode ajudar o PSDB a reencontrar sua social-democracia perdida nos últimos anos.

"A expectativa é que a montagem do novo governo municipal aponte uma terceira via", afirmou. "Até porque Bruno não deve mais nada a ninguém."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL