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Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Cabresto na Petrobras reforça que único projeto de Bolsonaro é ele mesmo

Mateus Bonomi/Estadão Conteúdo
Imagem: Mateus Bonomi/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

19/02/2021 20h46

Jair Bolsonaro demitiu o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, nesta sexta (19), após o quarto aumento no preço de combustíveis anunciado pela empresa no ano. No seu lugar, colocou o general da reserva Joaquim Silva e Luna, que estava em Itaipu.

Bolsonaro se irritou com Castello Branco por conta dos aumentos no diesel e, consequentemente, da insatisfação dos caminhoneiros, que semana sim, semana também, ameaçam fazer greve.

Não dá nem para sentir pena da decepção chorosa de certos representantes do mercado com Jair Bolsonaro.

Apenas quem passou a vida inteira em uma caverna sem wi-fi poderia ter acreditado na conversão liberal do capitão reformado - que começou sua carreira como representante de interesses de soldados, cabos e sargento do Exército e carregou, na maior parte de suas três décadas como parlamentar, um discurso nacionalista e estatista.

Duvido muito que o ministro da Economia, Paulo Guedes, acreditasse nessa conversão. Tampouco naquela história para boi dormir de que ele seria o seu "Posto Ipiranga". Essa narrativa foi muito útil no período eleitoral para enganar trouxa, depois caiu de maduro - sem venezuelanos trocadilhos.

Na verdade, já em setembro de 2018, em plena campanha, Guedes tomou um passa-moleque de Bolsonaro quando vazou uma reunião em que o economista falou sobre um de seus fetiches mais recorrentes: a criação de uma nova CPMF para tirar das costas dos empresários suas responsabilidades constitucionais com a seguridade social.

No dia 12 de abril de 2019, o Palácio do Planalto interveio no preço dos combustíveis, suspendendo o reajuste do preço do diesel e reduzindo a pressão por uma nova greve dos caminhoneiros. "Eu não vou ser intervencionista", disse o presidente, enquanto botava mão peluda na empresa.

Já neste 19 de fevereiro de 2021, Bolsonaro interveio diretamente no comando da Petrobras por conta da política de preço. "Jamais vamos interferir nesta grande empresa e na sua política de preços, mas o povo não pode ser surpreendido com certos reajustes." Disse que não interviria quando, de fato, interveio.

O mercado comprou um presidente conservador em costumes, reacionário em comportamentos e populista na economia. É tanto autoengano junto que parece até de propósito. Se fosse personagem de Nelson Rodrigues, o mercado seria Gilberto gritando para Judite: "Perdoa-me por me traíres!"

Para fugir do controle de preços adotado pelo governo Dilma Rousseff, Michel Temer entregou as decisões ao mercado, indo ao outro extremo. A gigante brasileira de energia é uma empresa de capital misto cujo comando é indicado pelo governo federal. Não deve, portanto, apenas produzir ganhos a seus acionistas, mas conta com um papel relevante para influenciar outros setores da economia e executar políticas de desenvolvimento social.

Faz-se necessário, portanto, um equilíbrio entre o que desejam seus acionistas minoritários e a qualidade de vida do país. O mercado, através de guerrilha midiática e chantagem descarada, sabe fazer pressão de uma forma bem mais profissional do que os trabalhadores e o grosso da população.

Estou retomando um debate que já fiz aqui. A maioria da sociedade sempre rechaçou a ideia de privatização da Petrobras por conta do discurso de soberania nacional, de patrimônio público e dos ecos das campanhas passadas de que o petróleo é nosso. Contudo, já está caindo a ficha para muita gente de que as políticas da empresa afetam mais o nosso dia a dia do que imaginavam.

Com o controle da Petrobras sob mãos do setor privado, como muitos desejam, provavelmente hoje se discutiria a saída apenas via redução de impostos federais, que Bolsonaro entregou esta semana, causando um rombo nas contas públicas.

Aliás, a redução de impostos pura e simplesmente não resolve. Mensagens com argumentos infantis nas redes sociais exigem que todos os impostos de combustíveis, como o ICMS estadual, sejam imediatamente zerados sob a justificativa de que esses valores arrecadados são usados apenas para bancar corruptos. Esquecem que educação e saúde pública, por exemplo, custam caro.

Quem produz e compartilha essas mensagens, não raro, são as mesmas pessoas que rangem os dentes quando seus investimentos perdem rentabilidade. Isso sem contar que impostos, ao menos na gasolina, também devem ter função de dissuadir o uso do transporte individual em detrimento ao coletivo, reduzindo a emissão de gases tóxicos que matam cidadãos de grandes cidades.

Se o Brasil soubesse para onde vai, este seria o momento ideal para discutir o apoio à expansão ferroviária e hidroviária - que, num país de dimensões continentais, é lento e vergonhosamente caro.

Nada disso significa impossibilitar uma gestão profissional na mais importante empresa brasileira. O governo não pode se furtar a criar mecanismos para amortizar ou absorver variações ou mesmo procurar substituir importações de derivados de petróleo que impactam no custo final.

Ampliar o colchão de amortecimento, o que ajudaria os caminhoneiros que, não raro, ainda não sabem qual o custo real do frete antes de aceitar o serviço devido a aumentos enquanto estão na estrada, é uma possibilidade.

Nada disso é simples. Mas o debate é necessário.

O objetivo de Bolsonaro foi faturar politicamente em cima da situação, mostrando-se o "presidente amigo dos caminhoneiros". Por outro lado, também reforçou a imagem do "presidente inconsequente, que faz tudo o que lhe dá na telha".

Seu comportamento mostra incompetência, ignorância e despreparo. E covardia, por nunca assumir suas intervenções junto à estatal.

É importante que os diferentes atores econômicos e sociais envolvidos e a própria sociedade não sejam surpreendidos, mas entendam o que o governo pensa e para qual direção quer ir.

Decisões intempestivas como essa apenas confirmam a imagem de um presidente que não tem um projeto para o Brasil para além do controle estatal do sexo alheio e gira como uma biruta, a depender da direção apontada pelos ventos nas redes sociais e aplicativos de mensagens.

Mesmo com tudo isso, o grosso do mercado não vai abandonar o capitão. Como aqui já disse, uma parte é bolsonarista desde criancinha e acredita que só é pobre quem não se esforçou, mas vive a beleza da meritocracia hereditária - essa parte concorda com o presidente que o melhor é o povaréu ir para a rua, em meio à covid-19, dar sua cota de sacrifício pelo bem dos indicadores econômicos. Parte é fã da banda "Guedes e os Ultraliberais", torcendo para ela tocar seus hits "Licença ambiental fede", "CLT desce ao Inferno" e "Pau no BPC". Há, claro, os responsáveis. Mas andorinha só não faz verão.

Imagina só como vai em 2022. Loucura.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL