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Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bolsonaro se lambuza no discurso populista de direita de olho em 2022

Jair Bolsonaro participa de evento em Brasília - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Jair Bolsonaro participa de evento em Brasília Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

25/02/2021 16h17

Desde a mão peluda de Bolsonaro na Petrobras, muitos têm feito uma comparação entre o ex-capitão e a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) - que também interferiu nos preços dos combustíveis e da eletricidade. Dizer que ele está assumindo um comportamento de esquerda, contudo, é ótimo para farialimers fazerem memes, mas péssimo para um debate saudável sobre o buraco em que ele está nos metendo.

O que temos, na verdade, é um presidente que flerta com um discurso populista de direita para agradar determinados grupos sociais que ele vê como fundamentais para seu projeto de poder, mas que continua achando o combate às desigualdades estruturais o ó do borogodó.

"Uma estatal, seja ela qual for, tem que ter sua visão de social. Não podemos admitir uma estatal e um presidente que não tenha essa visão", disse ele em cerimônia sobre o sistema elétrico de Furnas em Foz do Iguaçu (PR), futucando a Petrobras.

Na verdade, qualquer empresa deve se atentar para boas práticas ambientais, sociais e de governança, atuando para melhorar a qualidade de vida da sociedade. Não é mais admissível que uma empresa passe por cima de qualquer coisa pelo lucro de seus acionistas. Grandes investidores se preocupam com isso - e exigem mudanças de comportamento para continuarem colocando seu dinheiro.

A questão é que o "social" de Bolsonaro significa socializar empresas estatais ou de economia mista, usando-as em prol de seus interesses eleitorais.

Jair Messias tenta falar diretamente à massa, vendendo-se como alguém que luta contra o "sistema" para proteger "homens e mulheres de bem". Vende suas ações como expressão da vontade popular, quando são, na verdade, indicadores de auto-sobrevivência familiar.

Aliás, o julgamento no Superior Tribunal de Justiça que anulou quebras de sigilo bancário e fiscal de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), em meio ao escândalo das "rachadinhas", é prova que se Jair usasse sua capacidade de articulação para o bem, a covid não teria matado tanta gente.

O presidente quer passar a imagem de que está fazendo o que for preciso para baixar o preço da gasolina e do diesel, reduzir a conta de eletricidade e derrubar tarifas bancárias e juros ao consumidor. As pautas são justas, mas ele faz isso de forma torta, no gogó, na canetada, na ombrada, e não no diálogo e na construção.

E foca em uma noção de cidadania que se limita à relação dos brasileiros com o consumo e não com serviços públicos de qualidade. Se ele se preocupasse com serviços públicos de qualidade não deixaria seu ministro da Economia tentar enfiar goela abaixo do Congresso Nacional o fim da obrigatoriedade dos gastos mínimos em educação e saúde. E caso se importasse de verdade com os brasileiros, teria um projeto para a geração de empregos de qualidade.

Bolsonaro começou sua carreira como representante de interesses de soldados, cabos e sargentos e carregou, na maior parte de suas três décadas como parlamentar, um discurso nacionalista e estatista. Só não viu quem não quis.

Ele, contudo, não dá uma banana para o mercado, entregando uns engana-que-eu-gosto, na forma de promessas vazias sobre a Eletrobrás, por exemplo, toda vez que é criticado pela tal mão peluda para agradar um dos grupos de sua base. Parte do mercado, que acha que "social" é roupa de balada, se acalma e abana o rabo.

Foi com o discurso populista que conquistou os corações e mentes do bolsonarismo-raiz, núcleo duro do culto à sua pessoa. O grupo está com ele muito antes do lavajatismo-morista, do mercado-oportunista e do militarismo-golpista.

Durante a pandemia, a adoção do terraplanismo pandêmico levou Jair Messias a ser abandonado por uma parcela das classes média e alta que o elegeram. Com isso, trocou parte da base como uma jararaca troca de pele. A popularidade trazida pelo auxílio emergencial fez com que ganhasse terreno entre quem ganha até três salários mínimos.

Torce, por isso, para que o benefício seja renovado logo. Quem acreditou no seu teatrinho de que não iria renovar o (necessário) auxílio em nome da responsabilidade fiscal também devia ver no cigano Igor uma grande interpretação.

Desde então, ele tem feito um périplo pela região Nordeste ao lado de representantes do centrão para tentar abocanhar uma parte do lulismo. No dia 19, foi ao sertão pernambucano para testes de um ramal da transposição do rio São Francisco que só será inaugurado, veja só, no meio do ano. Traduzindo: foi tirar foto com a água correndo pelo Semiárido para capitalizar sobre uma obra que começou no governo petista visando a sua reeleição. "Água é vida para esse povo sofrido. Isso é mais do que ganhar na Mega-Sena. Água não tem preço", disse não em português, mas em populismo puro.

Enquanto ministros como Damares Alves e Ernesto Araújo reafirmam cotidianamente um discurso moralista com apelo religioso, outra marca do populismo de direita, apresentando Jair como Messias, ele libera armas e munições em quantidade suficiente para milícias montarem arsenais.

Mesmo com militares e policiais, principalmente praças, líderes religiosos conservadores, parte do agronegócio e do extrativismo, outra parte do mercado (sim, não há cura para o autoengano), um naco dos trabalhadores agradecidos pelo auxílio (cujo principal autor é o Congresso, não ele) e os 12% a 16% de seguidores fanáticos, pode ser que não vença em 2022.

A caminhada até lá, contudo, causará um estrago na democracia que vamos levar décadas para resolver. Toda a construção sobre a importância da participação popular está se dissolvendo em nome do fortalecimento da imagem de um líder forte (sic) que resolve tudo na canetada e enfrentando o mal vestido de vermelho.

Isso, claro, se não houver, após a apuração dos votos, dedo no olho e baixaria, invasão do Congresso, tropas de GLO, estado de sítio, AI-5 Reborn, milicianos gritando "mito!" de sunga branca. E esculacho, muito esculacho.

Mas, como as 250 mil mortes, a democracia já deve ter sido precificada pelo mercado, não é mesmo?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL