PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

'Vivemos uma guerra de extermínio, uma guerra biológica fora de controle'

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

09/03/2021 20h46

"Vivemos uma guerra de extermínio, uma guerra biológica fora de controle."

A avaliação é do médico e neurocientista Miguel Nicolelis, professor catedrático da Universidade de Duke, nos Estados Unidos. Ele, que coordenou o Comitê Científico do Consórcio Nordeste para o combate ao coronavírus, falou ao UOL nesta terça (9), junto com a microbiologia e fundadora do Instituto Questão de Ciência, Natália Pasternak, e com o médico infectologista, reitor da Faculdade de Medicina do ABC e ex-coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus no Estado de São Paulo, David Uip.

Na mesma terça, o país bateu novamente o recorde de mortes registradas em 24 horas: 1.954. Este é o 48º dia consecutivo com média móvel de óbitos acima de mil. Até agora foram 268.568 vítimas.

Nicolelis, um dos mais prestigiados cientistas brasileiros, compara este momento ao de uma guerra - que está sendo perdida.

"O país está sitiado. É como a Batalha de Stalingrado [cidade soviética bloqueada pelos nazistas na Segunda Guerra], com o inimigo cercando o país. Nossos recursos humanos estão sendo destruídos pelo vírus, temos recorde de perda de profissionais de saúde, recorde de grávidas morrendo de covid. O nosso exército está sem munição - que se chama vacina. Os insumos diários para manter a guerra viva, nossa defesa do último bastião de soberania nacional, que são os medicamentos, estão desaparecendo."

Ao UOL, contou que foi criticado por fazer uma estimativa considerada conservadora: de que o país pode atingir, até o final de março, 3 mil mortos num único dia. "Podemos ter 500 mil pessoas mortas até o final do ano. Estamos entrando no território de genocídio", avalia.

Miguel Nicolelis defende que se o governo federal não decretar um lockdown nacional, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal têm que assumir o vácuo, decretar tutela do Ministério da Saúde e garantir recursos financeiros para que as pessoas possam ficar em casa. O que inclui um valor de auxílio emergencial maior do que aquele que está sendo discutido pelo governo Jair Bolsonaro. "Estamos querendo oferecer R$ 250, R$ 300 para as pessoas morrerem de fome em casa."

Alertou que, após um colapso sanitário, o Brasil pode passar também por um colapso funerário, com cidades incapazes de lidar com a quantidade de mortos. "Infecções bacterianas secundárias começam a surgir, lençóis freáticos são contaminados. E quando você tem um colapso desse, não tem volta", afirma.

E criticou os empresários que brigam contra o fechamento de atividades econômicas, alertando que, com a piora da pandemia e com o colapso da situação sanitária, eles não terão para quem vender, perdendo clientes dentro e fora do país.

Brasil pode virar uma 'grande sopa de variantes'

A doutora em microbiologia e fundadora do Instituto Questão de Ciência, Natália Pasternak, fez duras críticas à falta de coordenação dos esforços nacionais do combate ao coronavírus.

"No Brasil, não tem como destituir o presidente da República a não ser por impeachment. Nos Estados Unidos, há a 25ª emenda da Constituição, que prevê que se o vice e o gabinete, em maioria, decidirem que o presidente está inapto para o governo, ele é destituído. Mais inapto do que o atual presidente, a gente não tem", disse.

Ela diz que é preciso que os governadores se organizem mutuamente porque isso não virá do governo federal. "Se não fizermos nada, o risco é nos transformamos em uma grande 'sopa de variantes'. Por que sem vacinas em quantidade adequada e sem medidas de contenção e sem coordenação, vamos ter o vírus correndo solto. Quanto maior a replicação, maior a probabilidade de surgirem mutações que podem trazer vantagens ao vírus", explica.

Mas alerta que o que causou a situação calamitosa em que estamos não é a variante brasileira do coronavírus, pelo contrário: ela é consequência da situação calamitosa.

"Temos a maior probabilidade de ter mais variantes e não conseguir controlar e de nos tornarmos um grande pária do mundo, com prejuízos geopolíticos, econômicos, de turismo. Não poderemos entrar em outros países, pessoas não vão querer vir para o Brasil", avisa. "E a gente se torna uma ameaça sanitária para o mundo. Por que se tem um país do tamanho do nosso que não controla a pandemia, o mundo não controla a pandemia."