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Leonardo Sakamoto

Queiroga anuncia para a Copa América cuidados que o governo negou ao Brasil

Troféu da Copa América 2021. Ou uma urna funerária - Divulgação/Conmebol
Troféu da Copa América 2021. Ou uma urna funerária Imagem: Divulgação/Conmebol
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

07/06/2021 21h00

Se o governo de Jair Bolsonaro tivesse adotado para todos os habitantes do Brasil o mesmo pacote de ações sanitárias que promete para a Copa América, o número de mortos pela doença teria sido bem menor do que os mais de 474 mil até hoje. Isso reforça que ele sabe o que é preciso ser feito para evitar o contágio em massa. Apenas não quis fazer.

O ministro da Saúde Marcelo Queiroga anunciou, nesta segunda (7), uma série de medidas para a realização da Copa América por aqui, entre elas distanciamento social, transporte pensado para evitar contágio, restrição à circulação dos envolvidos, exame RT-PCR a cada 48 horas, teste rápido de antígeno entre os PCRs, verificação diária por profissionais de saúde.

Imagine que maravilha se essa fosse a política nacional nos últimos 15 meses. Mas foi tudo ao contrário.

Bolsonaro sabotou sistematicamente o distanciamento social e qualquer restrição à circulação de pessoas, promovendo aglomerações por motivos fúteis. Seu governo deixou milhões de testes vencerem em um galpão em Guarulhos (SP) ao invés de enviá-los a estados e municípios, além de não ter feito uma testagem em massa como ocorreu nos países que conseguiram controlar a doença. Trabalhadores contaminaram-se em ônibus, trens e barcas (tinham que se arriscar, pois o auxílio emergencial minguou e foi suspenso) sem contar com uma máscara PFF2/N95, pois o governo se furtou a articular ações desse tipo. E a situação estaria bem melhor se a atual gestão não tivesse ajudado a implodir a base do programa de saúde da família.

Tivemos um Gabinete das Sombras, composto por charlatães que ajudaram Bolsonaro a contaminar de forma ampla e irrestrita a população e atrasar a compra de vacinas. Tudo em busca de uma imunidade de rebanho que nunca seria alcançável dessa forma, até porque o país se tornou berçário de novas variantes e a reinfecção se tornou regra.

Em uma jogada política, o presidente da República trouxe o evento para o Brasil após a Argentina recusá-lo devido à alta taxa de infecção pelo coronavírus. Na prática, ele vai ser uma espécie de Torneio Abertura, para celebrar o início da terceira onda de casos da doença por aqui.

Há outros campeonatos sendo realizados, coisa que não deveria estar acontecendo, como já escrevi aqui várias vezes. O retorno ao futebol é viável em países no qual todos os clubes e organizadores seguem rigorosamente os protocolos sanitários, coisa que não acontece por aqui. Tanto que há times que se tornaram covidários.

O torneio pode vir a ser um momento de confraternização de diferentes cepas do vírus. E, vale lembrar, que os envolvidos não são apenas as 650 pessoas das delegações, como diz o governo. Há jornalistas que farão a cobertura, além das equipes de apoio de trabalhadores brasileiros.

Qual a vantagem para o país de estarmos realizando a competição agora? Não há público e, portanto, consumidores. Agora, é fácil entender a vantagem para o presidente da República, que usará o evento para mostrar que a vida voltou ao normal. Estará na abertura, como adiantou nosso colega aqui no UOL Jamil Chade, e provavelmente no encerramento, para transformá-lo em sua festa política, com a ajuda da CBF e Conmebol.

Ficou claro no depoimento da médica Luana Araújo à CPI da Covid que Queiroga não tem autonomia nem para montar sua própria equipe, que dirá para articular uma política nacional de combate à pandemia.

A infectologista havia sido anunciada por ele como secretária extraordinária de enfrentamento à doença, mas acabou desconfirmada pelo Palácio do Planalto dez dias depois. Não deve ter passado no teste da Terra Plana.

Agora, Queiroga se presta ao papel de garantir um verniz científico às necessidades políticas do seu chefe, o verdadeiro ministro da Saúde. Nada novo, como diria o general Eduardo "Intocável" Pazuello, seu antecessor no cargo, "é simples assim: um manda e o outro obedece".

Em tempo: A Copa América vai copiar uma coisa da política bolsonarista para a pandemia: o desprezo pela vacina. Apesar das promessas, os jogadores não precisam estar vacinados, segundo o "ministro". Como os milhares de brasileiros, que poderiam ter sido salvos, se o governo tivesse respondido às ofertas da Pfizer e do Instituto Butantan no ano passado.