PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

Terra, Barros, Lira: Centrão dá salvo-conduto ao negacionismo de Bolsonaro

22.jun.2021 - O deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) presta depoimento à CPI da Covid - Edilson Rodrigues/Agência Senado
22.jun.2021 - O deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) presta depoimento à CPI da Covid Imagem: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

22/06/2021 21h42

Declarações negacionistas sobre a covid-19 por parte de Osmar Terra (MDB-RS) na CPI da Covid, doses de negacionismo do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), e uma passada de pano no negacionismo de Jair Bolsonaro pelo presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), indicam que, se depender da base do governo, o Brasil dos 500 mil mortos e das evidências de corrupção na compra de vacinas vai muito bem, obrigado.

O deputado federal Osmar Terra, apontado como o chefe do Gabinete Paralelo da Saúde, criticou as quarentenas, na CPI da Covid, nesta terça (22), afirmando que elas não salvaram uma vida sequer - o que é uma cascata da grossa. Países que adotaram lockdowns rigorosos, como a China e Nova Zelândia, tiveram melhores resultados.

Osmar teve a pachorra de citar os altos índices de mortes em asilos como "prova" de que ficar em casa mata, uma vez que esses idosos não saíam de sua residência. Trata, dessa forma, os brasileiros como idiotas, pois o coronavírus não surge em asilos por geração espontânea. Tudo isso vai ao encontro do que defende o presidente.

Enquanto Terra falava à CPI, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), em entrevista ao UOL, relativizou o não uso de máscara por Jair Bolsonaro e disse que o consumo de ivermectina e cloroquina (remédios ineficazes para covid) é uma questão de opinião.

Também defendeu a imunidade de rebanho "por vacinação ou por contágio", reafirmando a bobagem bolsonarista de que contágio gera imunidade, mesmo que a morte por reinfecção por nova variante seja uma realidade.

E foi publicada, nesta terça (22), uma entrevista do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), ao jornal O Globo. Nela, ele menosprezou a compra antecipada de milhões de doses da vacina da Pfizer, dizendo que isso não salvaria a pandemia.

E afastou a possibilidade de colocar um dos 122 processos de impeachment de Bolsonaro para ser analisado. Vale lembrar que Jair estabeleceu um contrato de aluguel com o centrão, que vem sendo pago com cargos, emendas e projetos de leis bizarros.

Isso mostra que, apesar da pressão contra o presidente na CPI da Covid no Senado Federal, a tropa de choque de Bolsonaro na Câmara dos Deputados segue alinhada. O próprio Lira disse, na entrevista, que a CPI é um "erro" e que "não vai trazer efeito algum, a não ser que pegue alguma coisa".

Pode-se questionar o que mais ele quer que se "pegue". A sabotagem do presidente e seus auxiliares sobre o combate à pandemia através da demora na compra de vacinas, da promoção de remédios ineficazes, do ataque ao uso de máscaras e da tentativa de derrubar a política de isolamento social já produziu 500 mil mortos e milhões de pessoas com sequelas, além de 14,8 milhões de desempregados.

Talvez os indícios de corrupção na compra da Covaxin, vacina desenvolvida pelo laboratório indiano Bharat Biotech, seja esse "alguma coisa".

Ela foi comprada pelo Brasil com um preço 1.000% maior do que o que foi anunciado seis meses antes pelo fabricante. Além disso, o valor pago (15 dólares a dose) foi maior que qualquer outra vacina adquirida pelo país. A ordem para a compra veio do próprio Bolsonaro, em uma negociação mais curta do que aquelas realizadas com a Pfizer ou com o Instituto Butantan.

Para piorar, o país não fechou o negócio diretamente, mas teve a intermediação da Precisa Medicamentos - o dono, Francisco Maximiano, ia depor a CPI nesta quarta, mas afirmou que está em quarentena, o que adiou sua ida para a semana que vem.

A Precisa, aliás, é sócia da Global Gestão em Saúde, alvo de ação na Justiça Federal por ter embolsado R$ 20 milhões por remédios que nunca foram entregues durante a gestão de Ricardo Barros como ministro da Saúde em 2017.

A depender do que for encontrado, pode ser que isso dê um chacoalhão na imagem do presidente, que se vende como puro após anos de rachadinhas. A questão é que enquanto o contrato com o centrão estiver vigente, ele pode aparecer em um vídeo rindo sobre o caixão de mortos por covid que nada vai acontecer. Terá apenas que pagar mais pela fatura a fim de que deputados digam que ele estava, na verdade, rindo de tanto chorar.