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Leonardo Sakamoto

Governo ignorou mudança climática e gerou crise elétrica, diz pesquisador

Torres de alta tensão vistas durante pôr do sol, em Brasília (DF); energia elétrica, luz, eletricidade - Ueslei Marcelino/Reuters
Torres de alta tensão vistas durante pôr do sol, em Brasília (DF); energia elétrica, luz, eletricidade Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

17/07/2021 09h32

Resumo da notícia

  • Crise elétrica no Brasil não é consequência de fenômenos naturais, mas de grave erro na operação do sistema, que negligenciou as mudanças climáticas.
  • Reservatórios do sistema elétrico foram mantidos temerariamente baixos por anos, criando as condições para a crise atual.
  • O sistema foi projetado para garantir abastecimento mesmo em anos mais secos, mas para isso reservatórios não poderiam ter sido deixados tão baixos.
  • O problema deve se agravar nos próximos anos, comprometendo a geração de hidroeletricidade, pois a temperatura do planeta aumentará por décadas.

Por Sérgio Cortizo*, especial para a coluna

A crise elétrica não é consequência de fenômenos naturais periódicos, como a "La Niña", mas de um grave erro na operação do sistema, que negligenciou os efeitos das mudanças climáticas antrópicas (associadas ao aquecimento global) nas vazões dos rios brasileiros. Em decorrência dessa negligência, os reservatórios das hidrelétricas do sistema ficaram muito baixos por vários anos, e assim foi apenas uma questão de tempo até chegarmos à crise atual.

O nível dos reservatórios do Sistema Interligado Nacional (SIN) caiu abruptamente no ano de 2012, surpreendendo seus operadores. Essa queda não foi planejada e nem prevista: quando aconteceu, ela exigiu o acionamento emergencial das usinas termelétricas do sistema a fim de assegurar o atendimento da demanda de energia elétrica. Na época, houve muita discussão sobre o que havia causado o comportamento anômalo dos reservatórios, mas não se chegou a uma resposta definitiva e o sistema continuou a ser operado como se nada significativo estivesse acontecendo.

Entretanto, depois de 2012, o comportamento do SIN mudou completamente, como podemos ver no gráfico abaixo:

Crise hídrica -  Gráfico 1 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

As usinas térmicas foram projetadas originalmente para funcionar como "backup" do sistema: seriam acionadas temporariamente quando necessárias para compensar períodos de baixa afluência nas usinas hidrelétricas. As térmicas desempenharam bem este papel entre 2003 e 2011, como mostrou o gráfico anterior. A partir de 2012, no entanto, as usinas termelétricas passaram a compensar permanentemente um déficit de geração hídrica, conforme o gráfico seguinte:

Crise hídrica - Gráfico 2 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Por outro lado, o aumento significativo da capacidade instalada de geração hidrelétrica entre 2012 e 2020 (com a entrada em operação de novas usinas) não se traduziu em uma maior geração efetiva, como era esperado.

O próximo gráfico mostra que, a partir de 2012, a geração hidrelétrica real (linha azul, eixo vertical da esquerda) se descolou claramente da capacidade instalada de geração hidrelétrica do sistema (linha vermelha, eixo vertical da direita). O fato de a geração média estar hoje no mesmo patamar de 2012 indica uma redução progressiva da água que tem chegado às usinas hidrelétricas.

Crise hídrica - Gráfico 3 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Essa alteração estrutural nas características operacionais não foi planejada nem prevista, e o sistema simplesmente continuou a ser operado da mesma forma que antes de 2012. No entanto, seu comportamento tornou-se caótico, com um nível médio de armazenamento de água nos reservatórios das usinas hidrelétricas muito inferior ao observado entre 2004 e 2011, como se pode ver no gráfico seguinte:

Crise hídrica - Gráfico 4 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Assim, em um ano particularmente seco como 2021, simplesmente não há reserva hídrica suficiente para atravessar com tranquilidade o período de seca sazonal. De fato, se os reservatórios não tivessem sido mantidos tão baixos por tantos anos, não estaríamos passando pela crise atual.

Uma analogia simples ilustra o que ocorreu: os reservatórios das hidrelétricas do SIN atuam como o tanque de combustível de um carro que faz uma longa viagem. Se o motorista sempre encher o tanque só até a metade, ele vai sempre depender de encontrar postos de gasolina ao longo de todo o caminho: se demorar a aparecer um posto, o tanque esvazia completamente e ele fica na estrada. Quanto mais tempo o carro rodar com o tanque vazio, maior será o risco, pois ele pode chegar em um longo trecho da estrada sem postos de abastecimento.

Os reservatórios do sistema elétrico têm sido enchidos pela metade desde 2014.

O SIN foi projetado para garantir o abastecimento energético do país mesmo nos anos mais secos, mas para tanto o nível dos reservatórios não poderia ter sido deixado tão baixo por tantos anos.

O erro de operação que causou a crise atual foi não se ter percebido a tempo que a diminuição das vazões afluentes no sistema a partir de 2012 era o início de uma tendência de queda de longo prazo, associada às mudanças climáticas globais, e não apenas uma flutuação natural temporária.

Houve inúmeras indicações neste sentido, por exemplo: uma tendência de longo prazo de aumento das vazões naturais na região Sul e de diminuição na região Nordeste, conforme previsto pelos modelos climáticos. No entanto, o SIN continuou sendo operado como se nada de anormal estivesse acontecendo.

Por que os reservatórios não foram recompostos?

Para entender como esse erro manteve os reservatórios baixos por tantos anos, devemos considerar como é planejada a operação do sistema: todo mês um programa chamado Newave é utilizado para simular diversos cenários hidrológicos futuros, com base nas séries históricas de vazões observadas no passado. A partir dessa simulação, o programa determina a melhor operação do sistema segundo critérios como o custo da energia gerada e o risco de desabastecimento.

No entanto, a simulação do Newave pressupõe que não haja tendências de longo prazo nas séries de vazões afluentes, ou seja, que elas sejam estacionárias, que não se alterem muito com o tempo. Quando as mudanças climáticas começaram a impactar mais significativamente as afluências, esta hipótese de estacionariedade deixou de corresponder à realidade, e o programa passou a fornecer resultados sistematicamente errados, descolados da realidade.

Todo mês, no planejamento da operação do sistema, o Newave passou a superestimar a quantidade de água que chegaria às hidrelétricas do SIN no futuro. Como essa água nunca chegava, os reservatórios nunca mais voltaram aos níveis pré-2012.

Estudos baseados em modelos climáticos já haviam projetado uma queda nas vazões afluentes no SIN, mas essas projeções nunca receberam a devida atenção. Manteve-se a hipótese de a quantidade de água disponível permanecia sem alterações mesmo quando os dados empíricos já demonstravam que ela era incorreta.

Como resultado, foi introduzido um viés na operação do sistema que manteve os reservatórios temerariamente baixos por anos, apesar de haver capacidade total de geração para recompô-los. Assim, neste ano relativamente seco, quando seria necessário utilizar a reserva de energia armazenada nos reservatórios para assegurar o abastecimento, eles estavam vazios, e a crise instalou-se.

Então, qual é a causa da atual crise elétrica?

A causa principal da crise energética atual não é um fenômeno natural imprevisível, com a "La Niña", nem tampouco as mudanças climáticas em si, mas a demora em se reconhecer que as mudanças climáticas já estão impactando significativamente as vazões nos rios brasileiros, como foi previsto pelos modelos climáticos e como revela claramente uma análise criteriosa das séries históricas de vazões afluentes passadas.

A crise atual deixou evidente que há anos o SIN vem sendo operado de forma temerária. Em 1º de junho de 2021, o Ministério de Minas e Energia publicou a Portaria nº 520, que abriu uma consulta pública para rever o planejamento da operação do sistema, visando à elevação do nível de armazenamento dos reservatórios. Mas essa iniciativa propõe soluções paliativas para o problema, como alterações de parâmetros técnicos do Newave, que levarão a mais distorções. Seria muito mais racional e efetivo corrigir o erro de planejamento na sua origem, descartando a hipótese obsoleta de estacionariedade das vazões afluentes no sistema.

As mudanças climáticas antrópicas associadas ao aquecimento global já estão alterando o regime hídrico no Brasil e criando problemas que não se limitam à geração hidrelétrica, uma vez que a gestão dos reservatórios do SIN tem impacto nos usos múltiplos da água - como consumo humano, animal, agricultura.

Estes problemas certamente vão se agravar nos próximos anos, pois mesmo que as emissões globais de gases de efeito estufa diminuam rapidamente, a temperatura do planeta continuará aumentando por algumas décadas, devido à alta concentração atual desses gases na atmosfera.

Assim, quanto antes o país compreender que as mudanças climáticas já são uma realidade, melhor será para todos.

(*) Sérgio Cortizo é físico e trabalha no governo federal com mudanças climáticas e energia desde 2009.