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Leonardo Sakamoto

Após nova ameaça de Bolsonaro, redes convocam para 'último recado' no dia 7

Faixa pede intervenção militar durante manifestação a favor de Bolsonaro em 2020 - Felipe Pereira
Faixa pede intervenção militar durante manifestação a favor de Bolsonaro em 2020 Imagem: Felipe Pereira
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

14/08/2021 17h46

Após Bolsonaro afirmar que vai pedir abertura de processo no Senado contra ministros do Supremo Tribunal Federal, neste sábado (14), grupos bolsonaristas no WhatsApp e no Telegram e nas redes sociais intensificaram a convocação para o tal "ultimo recado" do presidente no dia 7 de setembro.

Essa expressão havia sido usada por ele, em 3 de agosto, para ameaçar o Tribunal Superior Eleitoral após a abertura de inquérito pela corte devido às suas denúncias de fraudes nas eleições sem apresentar provas e às ameaças contra o pleito do ano que vem caso o voto impresso não fosse aprovado.

A convocatória de manifestações de apoio ao presidente quer aproveitar a presença de militares nas ruas devido aos desfiles - será o 199º aniversário do Dia da Independência. As convocatórias estão circulando entre militares, policiais, ruralistas e bolsonaristas-raiz, entre outros grupos.

O chamado traz um discurso que inverte a responsabilidade pelo golpismo. Apesar de o presidente da República estar atacando membros dos Poderes Judiciário e Legislativo visando às eleições do ano que vem e para encobrir denúncias de corrupção, 570 mil mortes por covid-19 e 14,8 milhões de desempregados, há convocatórias bolsonaristas pedindo às Forças Armadas que impeçam o STF, o TSE e o Congresso de agirem fora de suas competências.

Entre os vídeos que a coluna teve acesso, há ameaças de impedir a circulação em rodovias e avenidas, bem como de gerar desabastecimento como forma de protesto.

O texto deste sábado, postado no Facebook do presidente, começa com "Todos sabem das consequências, internas e externas, de uma ruptura institucional, a qual não provocamos ou desejamos". Na ameaça, ele afirma que vai pedir a abertura de um processo de impeachment no Senado Federal contra Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, ministros do STF.

O primeiro tem sido uma pedra do sapato de Bolsonaro por ser responsável pelos inquéritos das fake news e das milícias digitais, entre outros que investigam o presidente, e o segundo foi um dos maiores críticos à introdução do voto impresso - que apenas serviria para tumultuar, não aumentando a transparência da forma como foi proposto.

Bolsonaro como justificativa, em sua postagem nas redes, que "o povo brasileiro não aceitará passivamente que direitos e garantias fundamentais, como o da liberdade de expressão, continuem a ser violados e punidos com prisões arbitrárias, justamente por quem deveria defendê-los".

Refere-se a prisão de Roberto Jefferson, nesta sexta (13), em meio ao inquérito sobre a milícia digital que ameaça a democracia. O presidente do PTB tem postado vídeos empunhando armas, pedindo o fechamento do STF, conclamando a população a desrespeitar decisões do poder público. Fazendo coro com Bolsonaro, o procurador-geral da República, Augusto Aras, que vem agindo como seu aliado, afirmou ser contrário à decisão porque ela representaria uma "censura prévia à liberdade de expressão".

É uma atitude cínica, uma vez que Jair Bolsonaro tem exigido liberdade para atacar a democracia, tendo sido ele a ameaçar a realização das eleições de 2022.

Mesmo que o "último recado" reúna seus seguidores mais fiéis, a multidão será apenas uma sombra do que já foi o apoio ao presidente antes das crises sanitária e econômica na pandemia. E, claro, antes da revelação de corrupção na compra de vacina e dos tomaladacás com o centrão em troca de sua proteção diante de 132 pedidos de impeachment.

Quando falou no "último recado", o presidente disse que estaria atendendo ao "povo". Contudo, pelos números do último Datafolha, a parcela dos brasileiros que concorda totalmente com tudo o que ele diz é de 15% da população. Não é desprezível, mas está longe de representar maioria.

Bolsonaro, tomando a parte como o todo, vende as demandas e a visão de mundo desse grupo barulhento e organizado, e que concorda com ele, como sendo as aspirações e opiniões de todos os brasileiros.

O presidente tem tentado confundir a diversidade da população brasileira, seja ela de direita ou de esquerda, aos 15% que o apoiam cegamente. Quer mostrar que inquéritos contra ele são um ataque ao povo. E que o povo está ao seu lado quando, na verdade, o povo está preocupado em sobreviver porque o governo o abandonou.