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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro arrega, mas democracia não sobreviverá à tática de ataque e recuo

7.set.2021 - O presidente Jair Bolsonaro durante ato a favor do governo na avenida Paulista, na cidade de São Paulo - DANILO M YOSHIOKA/ESTADÃO CONTEÚDO
7.set.2021 - O presidente Jair Bolsonaro durante ato a favor do governo na avenida Paulista, na cidade de São Paulo Imagem: DANILO M YOSHIOKA/ESTADÃO CONTEÚDO
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

09/09/2021 17h16

Após as micaretas golpistas que protagonizou no dia 7 de setembro trazerem o impeachment de volta à mesa, Jair Bolsonaro divulgou, na tarde desta quinta (9), uma "declaração à nação" em que tenta colocar panos quentes no caos que ele mesmo criou. Com o arrego, escreve mais um capítulo em sua tática de aproximações sucessivas: ataca e recua, ataca e recua, erodindo aos poucos as instituições democráticas. Corre o risco, contudo, de ser chamado por seus seguidores de "frouxo" - como caminhoneiros já vêm fazendo.

Cada novo ataque é mais violento que o anterior e avança mais um pouco sobre a Constituição Federal. Neste, por exemplo, prometeu que não iria mais cumprir ordens judiciais proferidas pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF - o que, na prática, seria um golpe de Estado.

A assessoria do Palácio do Planalto confirmou que, mediado por Michel Temer, Bolsonaro conversou com Moraes para tentar reduzir a temperatura. Na terça, o presidente o havia chamado de "canalha" para mais de 125 mil pessoas na avenida Paulista, em São Paulo, onde o ministro tem residência.

Na nota, escrita com a ajuda de Temer, Bolsonaro diz que suas palavras "decorreram do calor do momento". Mentira. O momento não se resume ao 7 de setembro, uma vez que ele vem atacando Alexandre de Moraes há semanas por conta dos inquéritos das fake news e das milícias digitais atingirem ele, seus filhos e aliados.

A narrativa oficial é que Temer também veio ajudar a resolver os bloqueios causados por caminhoneiros empresas do agronegócio. Bobagem. Ao contrário da greve ocorrida sob o governo do ex-presidente, em maio de 2018, quando motoristas pararam o Brasil para reivindicar pautas da categoria, desta vez a motivação foi política, de apoio a Jair Bolsonaro e contra o Supremo Tribunal Federal.

Basta, portanto, um sinal claro de Jair para eles pararem. Ironicamente, o presidente acabou emparedado pela própria criatura, uma vez os bloqueios causaram pânico sobre um possível desabastecimento, levando a aumentos nos já exorbitantes preços dos combustíveis.

Mas Temer emprestou sua imagem para amparar a ideia de um recuo político.

Bolsonaro também estava sendo cobrado a passar a impressão que trabalha, mesmo que uma falsa impressão. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) ultrapassou 12% no acumulado dos últimos 12 meses. Ao mesmo tempo, o Dieese divulgou que o preço das cestas básicas aumentou em 13 das 17 capitais avaliadas mensalmente. Em Brasília, ele subiu 34% entre agosto de 2020 e agosto de 2021. Pega mal que, enquanto o presidente brinca de guerra com o STF, o brasileiro vê o país naufragar.

Agora, como sempre, vai entrar a turma do "pronto, tudo voltou ao normal". Também haverá aqueles que acreditarão, felizes da vida, que as notas de repúdio, os recados de políticos e as pressões sociais mudaram a forma de Bolsonaro pensar e agir.

Não, nada voltou ao normal. Daqui a pouco, ele ataca a República de novo. E de novo, e de novo.

E, se as instituições baixarem a guarda e normalizarem o fato de que temos um presidente que brinca com o país, essa sequência de ensaios de golpe pode levar a um ponto de não retorno para as instituições e a própria democracia.

Ou é isso ou temos alguém com um transtorno de múltiplas personalidades que não foi devidamente medicado e que, portanto, não pode gerir uma nação, devendo ser removido do cargo imediatamente.

Afinal, ao escrever que ele nunca teve "nenhuma intenção de agredir quaisquer dos Poderes" na tal nota pública, ele chamou a todos nós, brasileiros, de otários.

Vale assistir a sua live semanal na noite desta quinta. A carta foi voltada ao mundo político e econômico. A live é quando ele fala com seus apoiadores mais radicais. Se ele abandonar o discurso "bato e arrebento" e arregar lá também, seu rebanho vai ficar bem chateado. E, chateados, não demonstrarão o mesmo ânimo de defendê-lo nas ruas e nas redes sociais.