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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro festeja 1000 dias de governo com pobreza, inflação, fome e morte

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

26/09/2021 08h58

Jair Bolsonaro completa 1000 dias de governo com números assombrosos: chegamos a 14,7 milhões na extrema pobreza, como aponta reportagem especial do UOL neste domingo (26), 14,4 milhões de desempregados, 19,1 milhões de famintos e quase 600 mil mortos por covid-19, com uma cesta básica que subiu 34% nos últimos 12 meses, em Brasília, e 26%, em Porto Alegre, gasolina que ultrapassa R$ 7 em muitas cidades e o risco de apagões até dezembro.

Até aqui, o legado bolsonarista é um Brasil mais pobre, mais faminto, mais desesperançoso.

Para celebrar a efeméride, o presidente vai divulgar um projeto nacional para gerar empregos de qualidade e um pacote de ações a fim de garantir comida a quem tem fome, abandonar o negacionismo e reconhecer que a cloroquina nunca atrapalhou o combate à pandemia e ser mais transparente na crise energética? Não, organizou uma série de comícios eleitorais pelo país.

Entre eles, pasmem, há inauguração de trecho de 10 quilômetros de asfalto no Sul da Bahia, cerimônia de assinatura de concessão de aeroportos em Boa Vista, visita a uma estação de metrô em Belo Horizonte, assinatura de concessão de rodovia em Anápolis e, pasmem de novo, inauguração de obras de ampliação do aeroporto regional de Maringá.

Sim, Jair Bolsonaro parece um vereador federal. E age como tal para reduzir a reprovação de seu governo, que chegou a 53% nas últimas pesquisas Datafolha e Ipec (ex-Ibope).

Se o povo tem fome, que coma fuzis com arroz

O combate à inflação, ao desemprego, à fome e às crises energética e hídrica foram os grandes ausentes nos dois discursos que Jair Bolsonaro fez sobre os problemas do país, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, e na avenida Paulista, em São Paulo, nas suas micaretas golpistas de 7 de setembro.

Ele conseguiu a proeza de convencer a parcela de 11% da população representada por seus fãs mais radicais que a principal crise do país é de ameaça à liberdade. No caso, a sua liberdade de atacar a democracia. Neste momento, Bolsonaro está em uma breve fase de recuo em seu vai e vem contra as instituições. E já há uma parte da elite sonhando com um capitão menos tosco nas palavras, mesmo que ainda letal nas ações, para derrotar Lula.

Maria Antonieta, rainha da França no século 18, nunca declarou "se o povo não tem pão, que coma brioches", apesar de a frase ter entrado para o anedotário histórico. Mas Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, já chamou de "idiota" quem usa como argumento o preço do feijão e sugeriu que seus seguidores adquirissem fuzis.

"Tem que todo mundo comprar fuzil. Povo armado jamais será escravizado. Sei que custa caro. Tem idiota, 'ah, tem que comprar feijão'. Cara, se não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer comprar", afirmou no final de agosto.

E não é só o feijão. Os trabalhadores de Vitória sabem que o preço do quilo do café subiu quase 25% no mês passado, os de Florianópolis viram o açúcar disparar 10,5% e os do Rio amargaram um aumento de mais de 40% na batata, segundo dados do Dieese.

Bolsonaro disse na ONU que pagou R$ 4270 de auxílio, e pobres perguntam 'cadê?'

Vale lembrar que, quando a fome apertou (os tais 19,1 milhões de famintos, no final do ano passado, calculados pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), Bolsonaro cancelou o auxílio emergencial em 31 de dezembro e só retomou em abril, com valores mixurucas de R$ 150, R$ 250 e R$ 375 - muito menos que os R$ 600 ou R$ 1200 do primeiro semestre de 2020. Aliás, o piso do auxílio não compra 25% da cesta básica em São Paulo, Rio, Porto Alegre e Florianópolis.

Depois, em seu discurso na ONU, ainda mentiu que pagou um benefício de 800 dólares, ou seja, mais de R$ 4270.

Em primeiro de junho, Jair zoou com a cara dos trabalhadores, afirmando que "quem quer mais [auxílio emergencial], é só ir no banco e fazer empréstimo". O que os trabalhadores informais pobres que perderam o emprego por conta da pandemia e não estão conseguindo sobreviver com o novo valor do benefício vão dar como garantia de um empréstimo, ninguém sabe. Fuzis, talvez.

Vale lembrar que Bolsonaro e sua equipe de apoio custaram para nós cerca de R$ 1,8 milhão em hospedagem alimentação, passagens aéreas e gastos no cartão corporativo no Carnaval, em São Francisco do Sul (SC). Ele já tinha usado R$ 2,3 milhões dos cofres públicos para curtir o final do ano na mesma São Francisco do Sul e no Guarujá (SP). Um total de R$ 4,1 milhões. As informações foram requeridas ao governo pelos deputados federais Elias Vaz (PSB-GO) e Rubens Bueno (Cidadania-PR). Na época, com esse montante seria possível comprar quase 600 toneladas de feijão.

Isso sem contar o hotel de luxo que bancou a excursão dele e de seus assessores para Nova York. O contribuinte brasileiro pagou, por exemplo para o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, ir para os Estados Unidos mostrar o dedo do meio para manifestantes e, depois, ficar na cidade mais duas semanas por ter pego covid-19.

Temos fome, miséria e problemas sociais por conta da insuficiência de políticas do governo e do próprio caos provocado pelo presidente, que apenas faz campanha eleitoral.

O que não significa que o Brasil inteiro está insatisfeito. Desde que assumiu o poder, ele trabalha para vender a ideia de que o interesse dos indivíduos é sempre mais importante do que o bem-estar da coletividade. Nem todo indivíduo, claro, apenas os que atuam sob uma lógica bolsonarista. Ou seja, a liberdade individual de não usar máscara é mais importante que salvar vidas na pandemia; a de desmatar a Amazônia é maior do que a consequente falta de água; a de lucrar a qualquer custo é mais relevante do que a de garantir um mínimo de dignidade aos trabalhadores.

Sua gestão é um caos de inflação, desemprego, fome e morte. Mas o que chamamos de inferno, a militância bolsonarista dos tiozão do zap, mas também a formada por ruralistas, madeireiros e garimpeiros ilegais, policiais e militares que agem como milicianos, religiosos fundamentalistas, empresários gananciosos chama de paraíso. O presidente prometeu liberdade total para esse grupo fazer o que quiser. E, desde então, para eles fala e para eles governa.

Após 1000 dias, diante de escombros, Bolsonaro pode estufar o peito e dizer: vim, vi e venci, talkey?