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Leonardo Sakamoto

Paulo 'Sincerão' Guedes deixa claro que pagar impostos é coisa de pobre

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

23/11/2021 13h52

Paulo "Sincerão" Guedes ataca novamente. O ministro da Economia de Jair Bolsonaro afirmou, nesta terça (23), na Câmara dos Deputados, que usou a sua offshore em um paraíso fiscal para se livrar de imposto de herança nos Estados Unidos.

Já sabíamos que ele estava dando um cambau nos impostos no Brasil ao mandar o dinheiro para as Ilhas Virgens Britânicas - afinal, ele sabe que o Brasil é governado por um pessoal que parece não entender do riscado. Agora, ficamos sabendo que o objetivo também era investir em ações no mercado norte-americano fugindo do Tio Sam.

"Offshore é um veículo de investimento absolutamente legal. É absolutamente legal. Por razões sucessórias, se comprar ações de empresas, se tiver uma conta em nome da pessoa física, se você falecer, 46%, 47% é expropriado pelo governo americano. Tendo uma conta em pessoa física, todo seu trabalho de vida, ao invés de deixar para herdeiros, vira imposto sobre herança. Então o melhor é usar offshore, que está fora do continente", afirmou em audiência na Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público. Melhor para quem, cara pálida?

É legal? O Congresso Nacional e a Justiça é que devem dizer. Mas é imoral um ministro da Economia de um país na lama buscar blindar seu dinheiro no exterior de problemas na gestão do país e, ao mesmo tempo, evitar o pagamento de impostos. Duas vezes.

A convicção com que Guedes Sincerão deu seu depoimento não abre espaço para o lapso. Ele realmente acha normal a situação.

Da mesma forma que achou que não havia problema nenhum em perguntar, no dia 25 de agosto, "qual o problema agora que a energia vai ficar um pouco mais cara porque choveu menos?" O Brasil está pagando mais a elétrica energia por conta da crise nos reservatórios das usinas, decorrente da incapacidade de gestão do governo de que ele faz parte diante das mudanças climáticas.

Ou quando desaprovou empregadas domésticas viajarem à Disney; ou criticou o aumento na expectativa de vida da população; ou afirmou que a classe média exagera no tamanho do prato e que as sobras poderiam alimentar os mais pobres; ou reclamou que o governo ampliou demais o acesso ao Fies, bancando universitários que "não sabiam ler nem escrever"; ou insinuou um novo AI-5 diante de protestos de rua contra o governo; ou rotulou servidores públicos de parasitas; ou repreendeu pobres por não pouparem e os associou à destruição do meio ambiente

A revelação sobre as offshores do ministro e do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, foi feita em meio ao Pandora Papers, esforço global de reportagem do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), que está divulgando informações sobre políticos, empresários e figuras públicas que usufruem de paraísos fiscais.

As revelações sobre Guedes e Campos foram publicadas, no dia 3 de outubro, pela revista Piauí e o jornal El País, membros do consórcio.

Paulo Guedes, sua esposa e filha são proprietários de uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas que, em 2015, contava com US$ 9,55 milhões - mais de R$ 54 milhões no câmbio de hoje. Apesar de a conta ter sido declarada à Receita e informada ao governo, os parlamentares investigam se o ministro tomou ações que beneficiaram a si mesmo, incorrendo em improbidade administrativa.

O Código de Conduta da Alta Administração Federal proíbe funcionários do alto escalão de manter aplicações financeiras, no Brasil ou no exterior, que sejam passíveis de serem afetadas por políticas governamentais sobre as quais "a autoridade pública tenha informações privilegiadas, em razão do cargo ou função".

Deputados e senadores da oposição reclamam que houve conflito de interesses quando, em julho, Guedes defendeu retirar do projeto de lei que reforma o Imposto de Renda uma regra que taxaria valores em paraísos fiscais. Guedes diz que a retirada se deu por pressão do próprio parlamento.

Contrariado em várias de suas bandeiras, como a responsabilidade fiscal a todo o custo, que está sendo atropelada de forma oportunista pelo governo em nome da reeleição, Guedes demonstra mais amor pelo cargo do que por suas convicções técnicas e diz amém.

Até porque sabe que essa é a grande chance de sua vida, uma vez que não teria uma em um governo democrático e racional. Faz de tudo para continuar sentindo aquele quentinho de poder, com carro oficial, café sempre fresco e aspones abrindo suas portas. É um comportamento típico de pessoas que tentam, desesperadoramente, lustrar diminutas biografias.

Guedes parece não se importar em ser desautorizado, contanto que continue sendo chamado de ministro. Tampouco uma parte do mercado financeiro parece se importar que é Bolsonaro que controla Guedes.

Não é à toa que Jair goste tanto de Paulo. Ambos se completam. Até na sinceridade, que desfila nua, para desgosto e assombro da República.