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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Brasileiros vão trocar leite por água com disparada do preço no Brasil

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

06/07/2022 21h05

A riqueza de uma família já pode ser medida pela quantidade de caixinhas longa vida que ela mantém na despensa. Depois do óleo de soja, do café e da carne bovina, o leite está se tornando produto de luxo na mesa e na cozinha de muitos brasileiros.

De acordo com o tradicional levantamento mensal de preços do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), divulgado nesta quarta (6), o litro de leite subiu em todas as 17 capitais avaliadas pelo instituto. Em alguns lugares, já há marcas vendidas a impressionantes R$ 10.

Ironicamente, a capital que apresentou maior alta do preço médio, entre maio e junho, foi a de Minas Gerais, estado que é o maior produtor do país.

Em Belo Horizonte, o litro de leite integral UHT aumentou 23,09% entre maio e junho, seguida por Porto Alegre (14,67%), Campo Grande (12,95%) e Rio de Janeiro (11,09%). Em São Paulo, a subida foi de 9,3%.

No acumulado de 12 meses, BH teve alta de 48,89%, Florianópolis, 46,7%, Porto Alegre, 44,55% e São Paulo, 29,66%.

Há fatores sazonais e climáticos. Estamos na entressafra de inverno e a estiagem veio mais dura, o que prejudicou a qualidade das pastagens, reduzindo a oferta de leite.

Mas também há o impacto da inflação nos custos de produção, que vão da alimentação das vacas, passando pelo custo de medicamentos e fertilizantes até o combustível usado na produção, processamento e transporte do produto.

Inflação que, segundo pesquisa Genial/Quaest, divulgada também nesta quarta, é apontada como o principal problema econômico, sendo que a economia é, por sua vez, avaliada como o principal problema do país.

Os laticínios importados que ajudam a suprir a demanda nacional também encareceram com o dólar, fazendo com que essa indústria disputasse a matéria-prima.

A manteiga, por exemplo, também subiu 5,69% em Campo Grande, 5,38% em Belém, 3,23% em Recife entre maio e junho. No acumulado de 12 meses, o produto disparou 23,85% na capital do Mato Grosso do Sul. e 10,28%, em Goiânia.

Ou seja, mesmo com o fim da entressafra, o dólar alto (a moeda norte-americana subiu e fechou hoje a R$ 5,42, sob receio de recessão global) deve manter pressão sobre leite e os derivados.

Com a inflação galopante, muitos que comiam carne bovina tiveram que trocá-la por frango, quem comia frango mudou para ovo e quem comia ovo hoje passa fome. Em menos de dois anos, o número de famintos subiu de 19 milhões para 33,1 milhões. O mesmo pode acontecer com famílias que trocarão o leite pela água.

O governo Bolsonaro, que negou propostas do Congresso para garantir R$ 600 aos brasileiros mais vulneráveis no ano passado, quando a fome estava escalando, agora corre para pagar esse valor como Auxílio Brasil a fim de comprar votos na eleição de outubro. Como está atropelando regras fiscais, vai ajudar a fomentar ainda mais a inflação que encarece o leite.

Mas esse alento para as famílias que estão vivendo a ovo e água só dura até o final das eleições. Em 2023, o auxílio desaparece, pois não é mais útil para o governo e seus aliados. Daí, é cada um por si e Deus acima de todos.