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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que explica a subida de Jair Bolsonaro entre as mulheres no Datafolha?

O presidente Jair Bolsonaro na convenção do PP que oficializou a aliança com o PL - Adriano Machado/Reuters
O presidente Jair Bolsonaro na convenção do PP que oficializou a aliança com o PL Imagem: Adriano Machado/Reuters
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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

28/07/2022 20h20

Lula e Bolsonaro continuam praticamente onde estavam nos últimos dois meses, de acordo com nova pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta (28). Contudo, se o resultado final é semelhante, o atual presidente reduziu a dianteira do petista entre as mulheres e o ex-presidente ampliou sua vantagem junto aos homens. A expectativa da chegada dos benefícios sociais, aprovados na PEC da Compra de Votos, pode estar por trás de um dos movimentos.

Na pesquisa estimulada geral, Lula foi de 48%, em maio, para 47%, em junho, mantendo o índice em julho. Bolsonaro tinha 27% em maio, foi para 28% em junho e chegou ao final deste mês com 29%. As variações ocorreram dentro da margem de erro de dois pontos.

Entre as mulheres, Lula registrava 49% em maio, mesmo índice de junho, e 46%, em julho. Já Bolsonaro, passou de 23% em maio, para 21% em junho e 27% em julho. A diferença entre os dois foi de 26, 28 e 19 pontos, respectivamente. Considerando apenas as mulheres, a margem de erro é de três pontos.

A perda foi compensada em parte pela subida na intenção de votos de Lula entre os homens. Lula passou de 44% a 48%, entre junho e julho, enquanto Bolsonaro foi de 36% para 32%. Ou seja, a diferença entre eles foi de oito para 16 pontos. A margem também é de três pontos.

Como representa 52% do eleitorado, segundo o Datafolha, o voto feminino vem sendo perseguido por Bolsonaro para reduzir a diferença com Lula, então vamos nos debruçar sobre ele neste momento. Sua campanha tem se esforçado em tentar convencer que o presidente "gosta de mulheres". Essa foi, aliás, a tônica do discurso da primeira-dama, Michelle, no evento de oficialização da candidatura do marido, no último domingo (24).

"Falam que ele não gosta de mulheres. E ele foi o presidente da história que mais sancionou leis para mulheres, para a proteção das mulheres. Setenta leis de proteção para as mulheres. Falam que ele não gosta de mulheres, mas ele sancionou a lei que dava direito às mães com filhos com microcefalia de receber o BPC. Quando ele leva água para o Nordeste, ele está cuidando da mãe dona de casa, a mãe que leva o balde, a bacia na cabeça para cuidar de seus filhos", afirmou.

Apesar de a primeira-dama ter sido escalada para tentar "humanizar" a figura presidencial, o que pode ter algum impacto entre alguns grupos, como o voto evangélico, é a percepção de mudanças no poder de compra e na renda que podem fazer mudar o quadro.

Bolsonaro perde voto junto às mulheres por conta de seu comportamento historicamente misógino e pela defesa inconteste que ele faz do armamento da população. Mas é o impacto da crise econômica o seu pior inimigo. Ela se faz sentir mais entre as mulheres (principalmente as negras e pobres) do que entre os homens, de acordo com a Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE.

Não apenas porque elas foram atingidas em cheio pelo desemprego e pela queda de renda, mas também porque muitas são as responsáveis pelo bem-estar de suas famílias. É a inflação e uma crise econômica, que joga 33 milhões de pessoas para a fome, e não questões comportamentais e culturais que tiram o sono de dezenas de milhões de mulheres diariamente. Muito menos o debate sobre golpismo.

Para melhorar sua imagem nesse grupo, Bolsonaro apostou no reajuste temporário do Auxílio Brasil, que passará de R$ 400 para R$ 600 a partir de agosto, mas também no aumento do vale-gás. Além disso, o governo prevê incluir 2 milhões de famílias no Auxílio Brasil - ou seja, 2 milhões de famílias que não recebiam nada e passarão a receber R$ 600.

A notícia desse aumento, que vem chegando às mulheres através dos veículos de comunicação, das redes sociais e dos aplicativos de mensagens, pode estar gerando uma expectativa positiva e ajudando a melhorar a percepção sobre o governo.

A partir de agosto, quando os benefícios sociais atingirem os mais pobres, a expectativa se torna realidade e devem causar algum impacto na aprovação do presidente e em suas intenção de voto. Por enquanto, Bolsonaro oscilou um ponto, de 22% para 23%, entre quem ganha até dois salários mínimos, na comparação entre junho e julho. E Lula foi de 56% para 54%, variações dentro da margem de erro.

A PEC da Compra de Votos não deve fazer com que Bolsonaro encoste em Lula entre as mulheres e os mais pobres, mas pode reduzir a força eleitoral da lembrança do "churrasco com cerveja" que o petista explora para reforçar os anos de bonança sob sua gestão.

Errata: o texto foi atualizado
O presidente Jair Bolsonaro (PL) obteve 27% das intenções de votos entre mulheres no mês de julho, segundo o Datafolha. A informação foi corrigida

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL