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Madeleine Lacsko

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

As delícias e indulgências do extremismo político

Ilustração de Joana D"Arc, queimada em fogueira em 10 de maio de 1431 - Ann Ronan Pictures/Print Collector/Getty Images
Ilustração de Joana D'Arc, queimada em fogueira em 10 de maio de 1431 Imagem: Ann Ronan Pictures/Print Collector/Getty Images
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Madeleine Lacsko

Madeleine Lacsko é jornalista desde 1996. Participa dos think tanks Instituto Montese pela defesa da democracia e Sociedades Digitais e Relações de Poder, da GoNew.Co. Atuou como Consultora Internacional do Unicef Angola na campanha que erradicou a pólio no país, diretora de comunicação da Change.org para a América Latina, assessora no Supremo Tribunal Federal e do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp. Trabalhou na Jovem Pan, Antagonista, CCR e Gazeta do Povo.

Colunista do UOL

22/06/2022 04h00

Nós sempre ouvimos falar muito dos males do extremismo político, mas precisamos urgentemente falar sobre as vantagens. Gostaria que a provocação genial fosse minha, não é. Foi gentilmente roubada de um esquete antigo do comediante John Cleese.

O problema do extremismo e do fanatismo é muito semelhante ao dos vícios em geral. Ouvimos falar tudo o de ruim em torno da questão, mas não é nada disso que atrai as pessoas. As pessoas são atraídas porque se sentem bem com coisa que não presta. Às vezes bem demais.

Extremista é todo aquele que acredita em medidas radicais e extremas para resolver problemas sociais. Isso obviamente causa um ambiente persecutório, de intolerância e desrespeito às liberdades individuais de quem pensa diferente. Também não resolve nada.

Da mesma forma que ninguém fica viciado em drogas pelos danos que ela causa, ninguém adere a esses grupos tóxicos pela destruição da democracia e pelo esgarçamento do tecido social.

Como bem explicou John Cleese, o melhor do extremismo é que ele faz você se sentir bem porque ele te dá inimigos. Com eles, vem uma justificativa moral e socialmente aceita para que você possa dar vazão ao pior da sua alma enquanto sinaliza virtude.

A Universidade de Gotemburgo, na Suécia, classifica como "polarização tóxica" o atual estágio de polarização política. Ele é diferente de outros momentos e movimentos.

A polarização é tóxica quando as pessoas não estão em um grupo por acreditar que ele é o melhor, mas por acreditar que ele é o melhor para derrotar o grupo inimigo.

O inimigo representa todo o mal da humanidade. Por analogia, as pessoas passam a pensar que o próprio grupo é intrinsecamente bom. Daí, elas podem tudo, até agir exatamente como o grupo que criticam.

"Se você sente muita raiva e ressentimento e, portanto, gosta de maltratar pessoas, então pode fingir que faz isso só porque os seus inimigos são pessoas muito más. E, se não fosse por elas, você seria bom naturalmente e educado e racional o tempo todo", diz o humorista no esquete de 1987.

O mais importante do extremismo é a lista de inimigos políticos que ele te dá. São alvos para você atacar sempre, da maneira que quiser, sem respeito à dignidade humana e nem à civilidade se isso der prazer a você. E fique tranquilo, não haverá consequências.

Como tudo parece muito teórico, vou trazer para o mais importante que é a sua lista de inimigos. Você escolhe quais grupos tem mais prazer de humilhar para decidir em qual grupo se coloca. Resolvi atualizar para a política de hoje.

Se você for progressista, ou melhor progressiste, pode analisar o rol de inimigos liberados pela seita luloafetiva. Você vai poder bater sem dó na elite branca, nos conservadores, nos evangélicos, na família tradicional, em quem apoiou o "golpe" de 2016, nos liberais, na imprensa e nos moderados.

Se você for conservador ou antipetista pode analisar o rol de inimigos liberados pela seita do bolsonarismo. Você vai poder bater sem dó no "establishment", no STF, nos esquerdistas, nas minorias, nos lacradores, nos liberais, na imprensa e nos moderados.

Basta escolher a lista de inimigos que você vai poder se comportar de maneira violenta, desagradável, cruel e covarde e ainda ter a sensação genuína de que isso é moralmente justificável.

Diante do inimigo liberado pelo grupo, é possível dizer qualquer absurdo, cometer injustiças, difamar, maltratar, pisotear e ainda acreditar que é um guerreiro pelo bem maior, um justiceiro social ou cidadão de bem.

O melhor de tudo é que o extremista jamais precisa admitir para si que é uma pessoa torpe, ignorante e arrogante ao mesmo tempo, às vezes paranóica e sempre repugnante. É uma indulgência e uma delícia.

Obviamente o extremismo não trará melhorias da política, soluções para a sociedade, avanços para a humanidade. Não é disso que ele se ocupa. O objetivo é o deleite das perversidades e dos perversos, coberto pelo manto da justificativa moral. Como dizia Aldous Huxley, é o maior dos luxos psicológicos.