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Madeleine Lacsko

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quem acha que Michelle é fanática não entende a religião na política

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Madeleine Lacsko

Madeleine Lacsko é jornalista desde 1996. Participa dos think tanks Instituto Montese pela defesa da democracia e Sociedades Digitais e Relações de Poder, da GoNew.Co. Atuou como Consultora Internacional do Unicef Angola na campanha que erradicou a pólio no país, diretora de comunicação da Change.org para a América Latina, assessora no Supremo Tribunal Federal e do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp. Trabalhou na Jovem Pan, Antagonista, CCR e Gazeta do Povo.

Colunista do UOL

03/08/2022 13h12

Perdi a conta de quantas pessoas levadas a sério pela sociedade chamaram Michelle Bolsonaro de fanática depois que foram divulgadas as imagens da intercessão no Palácio do Planalto.

É um dado preciso sobre a distância religiosa entre quem vota e quem analisa a política. Ela já havia dito no discurso do lançamento da campanha do marido que realiza intercessões à noite, após o horário de trabalho. Uma minoria não sabe o que é e ficou surpresa.

Nesta quarta, Jair Bolsonaro participou de um culto na Câmara dos Deputados com algumas das lideranças evangélicas com mais projeção política no país.

Eles repetem um discurso religioso muito significativo, o de que Deus não escolhe os preparados, prepara os escolhidos. Nenhuma liderança se sedimenta na Terra sem que seja decisão de Deus.

Corre feito rastilho de pólvora a argumentação manca de que a realização de cultos evangélicos nos prédios públicos seria uma afronta à liberdade religiosa de quem não é evangélico.

A análise progressista, que tenta explicar fenômenos usando teorias críticas - o que é impossível - ainda parte para perguntas envolvendo as religiões de matriz africana.

"E se, em vez de fazer uma intercessão evangélica, levassem um pai-de-santo ao Palácio do Planalto? O Brasil viria abaixo", diz a elite urbana que não se importa nem com religião nem com fatos.

Michel Temer recebeu Pai Uzêda no Palácio do Planalto e o país não acabou. Ele também esteve no palco da convenção que mudou o nome do PMDB de volta para MDB. É o mesmo pai-de-santo que deu a flor símbolo de Ogum a Dilma Rousseff dentro do Palácio anos antes.

Fernando Collor de Mello e Rosane Collor diziam abertamente ser adeptos da umbanda. Fotos deles com um pai de santo na Casa da Dinda circularam na época.

José Sarney foi além. Tinha uma relação muito próxima com um dos maiores babalorixás da história do país, Bita do Barão, do município de Codó, no Maranhão. Ele foi oficialmente condecorado pelo presidente da República.

Em outubro de 2004, o deputado federal Luiz Bassuma, do PT da Bahia, incorporou uma entidade enquanto presidia a sessão de homenagem ao bicentenário de nascimento de Allan Kardec na Câmara dos Deputados.

Muita gente pode argumentar que não sabia de tudo isso. Obviamente não sabia. Sabemos de muitas coisas da política pelo escândalo que causam.

O fato é que a intercessão de evangélico efetivamente causou muito mais escândalo do que a constante presença de religiosos de matrizes africanas nos ambientes de poder.

Pior que isso, é a única que trouxe abertamente o questionamento de se é permitida ou não junto com uma saraivada de insultos aos praticantes da religião.

Existe uma confusão entre a Laicité francesa e o Estado Laico Colaborativo, que é vigente no Brasil.

A Laicité foi estabelecida em 1905, antes da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e proíbe qualquer manifestação religiosa em ambientes públicos.

O nosso Estado Laico segue parâmetros da Constituição de 1988, onde religiões e Estado não se misturam mas colaboram entre si porque todo ser humano tem as duas dimensões. O Estado não confessa uma religião mas faculta todo tipo de manifestação religiosa ou de ateísmo em espaços públicos e privados.

O brasileiro é um povo profundamente religioso. O maior exemplo de igreja originalmente brasileira é a tradição evangélica iniciada no Pará em 1911 com a Assembleia de Deus, maior igreja pentecostal do mundo.

Os que ignoram essa tradição religiosa do nosso país não estão chamando só Michelle Bolsonaro de fanática, estão falando isso do cidadão evangélico, da mãe dele, da mulher, da avó, da maioria das periferias brasileiras.

Mano Brown já alertou em 2018 que o preconceito progressista contra evangélicos precisava ser enfrentado. Não foi.

Quando fala de forma mal informada e pejorativa sobre a religiosidade de Michelle, a elite progressista diz às periferias exatamente o que pensa das suas tradições e costumes mais importantes. Um golaço para o bolsonarismo.