PUBLICIDADE
Topo

Madeleine Lacsko

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Linguagem de gênero neutro não é inclusiva nem pauta séria

só para assinantes
Madeleine Lacsko

Madeleine Lacsko é jornalista desde 1996. Participa dos think tanks Instituto Montese pela defesa da democracia e Sociedades Digitais e Relações de Poder, da GoNew.Co. Atuou como Consultora Internacional do Unicef Angola na campanha que erradicou a pólio no país, diretora de comunicação da Change.org para a América Latina, assessora no Supremo Tribunal Federal e do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp. Trabalhou na Jovem Pan, Antagonista, CCR e Gazeta do Povo.

Colunista do UOL

04/08/2022 11h46

Não bastou a Alberto Fernández a tradicional solução argentina de escolher um superministro para salvar o país do caos econômico. Ele inovou oficializando, ao mesmo tempo, a linguagem de gênero neutro no governo nacional.

Jair Bolsonaro até tentou surfar na onda, criticando o presidente argentino pela medida. A diferença seria que o povo ganha "pobreze", "desabastecimente" e "desempregue".

Ele está certo, mas a reação nas redes sociais foi a de que o assunto não tem importância e o presidente deveria trabalhar pelo Brasil.

Conheço gente que fica bastante irritada com o uso da linguagem neutra. E também quem realmente tem orgulho de usar e defende a adoção por instituições públicas. São pessoas adultas, o que é estarrecedor.

Os defensores do gênero neutro ou não-binário dizem que ele torna a comunicação mais inclusiva e menos sexista porque não divide tudo o tempo todo nos gêneros aceitos pela sociedade.

Não há nenhuma experiência de sucesso no mundo que mostre isso. O idioma chinês, aliás, é não-binário. Não consta que seja uma sociedade inclusiva.

Gênero neutro é um sucesso estrondoso entre a elite progressista e alguns meios específicos, como o da publicidade. Entre as minorias que supostamente seriam protegidas mas não foram sequer ouvidas está mais para piada.

Se falar essa espécie de "língua do pê" torna um grupo mais feliz, sou totalmente a favor. É uma falsa bondade, mas talvez seja o máximo que a pessoa pode oferecer.

Outra coisa, essa sim fora dos limites, é forçar quem não quer a usar a tal linguagem ou oficializar um idioma por vias tortas. "A linguagem evolui", argumentam alguns e eu concordo. Autoritarismo e imposição não fazem parte dessa evolução.

Na Argentina ninguém sabe qual é o idioma que foi oficializado. Assim como os países de língua portuguesa, os países de língua espanhola têm um acordo ortográfico em comum.

Esse movimento de "inclusão" decidiu tirar todos os demais países da discussão e também o próprio povo argentino. Pode funcionar para mobilizar a opinião pública até que a economia tenha alguma luz.

O que pouca gente sabe é que uma das culturas mais progressistas do mundo, a francesa, proíbe oficialmente o uso da linguagem neutra em escolas desde maio do ano passado.

O movimento é visto como elitista, excludente e prejudicial a todos os esforços de inclusão feitos nas escolas e mesmo por meio do idioma na França.

Lá existe um órgão que se encarrega exclusivamente do idioma, a Académie Française, fundada em 1635 pelo Cardeal Richelieu.

A secretária perpétua Hélène Carrère d'Encausse, mandou o seguinte comunicado em conjunto com o Ministério da Educação a todas as escolas do país em maio do ano passado:

"Num momento em que a luta contra a discriminação sexista envolve combates relacionados em particular à violência doméstica, disparidades salariais e os fenômenos do assédio, a escrita inclusiva, se parece fazer parte deste movimento, não é apenas contraproducente para este movimento, mas prejudicial à prática e inteligibilidade da língua francesa.
Uma linguagem procede de uma combinação secular de história e prática, que Lévi-Strauss e Dumézil definiram como 'um equilíbrio sutil nascido do uso' Ao defender uma reforma imediata e abrangente da grafia, os promotores da escrita inclusiva violam os ritmos do desenvolvimento da linguagem de acordo com uma injunção brutal, arbitrária e descoordenada, que ignora a ecologia do verbo."

O ministro da Educação, Jean-Michel Blanquer, deixou claro em documento oficial que há uma só gramática do mesmo jeito que há um só idioma e uma só República.

Admitir que somos um só povo e todos precisam ser incluídos parece um pensamento inclusivo. No entanto, é inútil para que alguém se sinta moralmente superior.

Que a publicidade use esse sentimento artificial de superioridade moral como produto em sua função sagrada de capataz do capitalismo, vá lá. Para a população e para o Estado não há, no entanto, qualquer benefício.