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Madeleine Lacsko

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Militância tóxica pelo PL das Fake News é tiro no pé do governo

Felipe Neto, comunicador e influenciador digital  - Divulgação
Felipe Neto, comunicador e influenciador digital Imagem: Divulgação

Colunista do UOL

02/05/2023 11h42

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A opção pelo pânico moral para aprovar o PL das "Fake News" é definitivamente um tiro no pé do governo. Deve acender a luz amarela caso se pretenda prosseguir com a mesma estratégia na CPI dos atos de 8/1.

O projeto tem perdido apoio muito mais pela atuação de quem o defende do que pela atuação dos contrários. Durante o final de semana, o tema pegou fogo nas redes. Não tanto quanto o caso da capivara e do influencer, mas com o mesmo nível intelectual de debate.

Desde o início, quem é contra o PL das Fake News acusa o governo de querer censurar pessoas comuns. Diante de um anúncio na página do Google questionando a eficácia do projeto, a máquina governamental foi acionada contra a Big Tech. Nessa altura do campeonato, os fatos não importam no debate, ficam apenas as sensações.

A ação do MPF, por exemplo, não fala no anúncio em si, diz que ele é legítimo. O questionamento é outro, sobre a possibilidade de haver impulsionamento favorecendo o ponto de vista do Google em resultados de buscas. Já é um debate difícil de explicar tecnicamente para o grande público. Ficou pior ainda com atuação de políticos e influencers.

Alguns deles disseram que seria abuso do poder econômico o Google opinar sobre o projeto. Definitivamente não é a melhor forma de jogar por terra a desconfiança de que o projeto dê abertura para censura. Aliás, é mais eficiente para criar dúvidas sobre intenção de censura do que todo o impulsionamento da hashtag #CensuraNão pela oposição.

Aqui há algo de importante sobre comportamento humano a observar. Nós não gostamos de receber informação ou ajudar os outros, gostamos de corrigir ou apontar incoerências. Outro dia um programador me disse que, quando precisa resolver dúvidas técnicas nos fóruns profissionais, usa dois perfis. Pergunta com o próprio e, com outro perfil, dá uma resposta estapafúrdia. Surgem imediatamente outros programadores para corrigir e resolver a dúvida. Se fica só a pergunta, ninguém aparece. É diante desse efeito que estamos.

Hoje, foram colocadas mochilas escolares em frente ao Congresso Nacional para lembrar do assassinato de crianças em escolas. Vários políticos e influencers, de forma concertada, fazem o salto lógico de dizer que o PL das Fake News impediria esses assassinatos. As pessoas sentem o cheio do pânico moral e da inconsistência. Os primeiros assassinatos em escolas foram antes da popularização das redes sociais.

No final de semana, houve uma live de influencers e artistas nas redes sociais falando de como as redes sociais estavam censurando pessoas favoráveis ao PL. Mais uma vez a incoerência salta aos olhos. Se as redes estão censurando, como a live ocorreu nas redes e foi propagandeada pelas redes?

Influencers começaram a alegar que estavam sendo censurados porque havia instabilidade em suas contas do Twitter. Houve um bug mundial do Twitter, que todos os usuários vivenciaram.

Outro ponto é o tratamento truculento dado a quem questiona pontos técnicos do PL das Fake News. Minhas considerações estão na coluna "Fake News e a arte da legislação freestyle", de 25 de abril. Não importa qual é o questionamento, o foco da militância tóxica não é resolver dúvidas, é desacreditar quem questiona.

O autor do projeto inicial, senador Alessandro Vieira, chegou a postar o seguinte: "O mais triste neste debate sobre o PL 2630 é que as críticas não apontam nenhum problema concreto no texto ou alternativas reais para proteger o ambiente digital. Só mentiras, desinformação e manipulação, partindo de criminosos, plataformas e políticos irresponsáveis. São iguais".

Se esse nível de pânico moral e dissociação da realidade vem de um senador sério, imagine o que estão fazendo os influencers. Muitos não têm o menor pudor de inferir que qualquer crítico do PL das Fake News tem interesses escusos, passa pano para pedófilos e neonazistas ou é leniente com massacres em escolas.

O festival da militância digital luloafetiva funcionou como kriptonita para o governo. A prática de invalidar qualquer tipo de questionamento levanta suspeitas até de quem poderia ser convencido sobre o tema em si.