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Maria Carolina Trevisan

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Brasileiro retoma otimismo com país, mas não conta com Bolsonaro para isso

Com rejeição nas alturas, Bolsonaro está no pior momento de seu governo em todas as pesquisas - Reuters
Com rejeição nas alturas, Bolsonaro está no pior momento de seu governo em todas as pesquisas Imagem: Reuters
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Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

09/07/2021 04h00

A principal análise da rodada de pesquisas desta semana é de que há um descolamento entre a expectativa positiva para o país e a avaliação negativa do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A pesquisa XP/Ipesp mostra que há uma esperança de melhora na economia e na saúde, mas a reprovação do presidente bateu recorde: 52% consideram seu governo ruim/péssimo. No levantamento Genial/Quaest, a maioria está otimista em relação à melhora da economia (38%), mas a avaliação negativa do governo Bolsonaro chegou a 44%.

A pesquisa do Instituto Ideia mostra que até na região Centro-Oeste, onde a avaliação positiva do governo superava a negativa, essa tendência se inverteu. E a desaprovação atingiu o recorde, alcançando 57%.

No Datafolha, a reprovação do presidente Bolsonaro chegou a 51%, um novo recorde. E Bolsonaro é visto agora como desonesto, falso, incompetente, despreparado, indeciso, autoritário, favorece os ricos e mostra pouca inteligência. Na PoderData, o apoio ao presidente mantém os 36%, mas sua rejeição bateu 56%.

Bolsonaro está no pior momento de seu governo em todas as pesquisas. Isso mostra que há uma mudança na percepção da imagem do presidente da República. A principal novidade é a corrupção. Quem antes perdoava determinados problemas no enfrentamento da pandemia, agora já enxerga a soma de erros. A corrupção torna o governo imperdoável.

Nada disso está escrito com todas as linhas nas pesquisas, mas é o que apontam os dados. Para quem se elegeu como representante da antipolítica, da anticorrupção, anti-tudo-o-que-está-aí, o fato de ser colocado com transparência diante do baixo nível das negociações de compra de vacinas e da brecha para obter propina nessas negociatas é demolidor.

O problema maior para Bolsonaro é que isso acontece em um momento em que ele promete renovar o auxílio emergencial (que já o salvou), em que a vacinação está avançando e surtindo efeito mesmo com o boicote do governo federal, em que existe diminuição no número de mortes há duas semanas consecutivas, e em que, apesar de todos esses elementos, nada é capaz de parar sua queda.

O eleitor perdoa muitas vezes o eleito. Mas quando a desaprovação rompe uma determinada barreira, fica difícil voltar. O eleitor se sente enganado, traído, magoado, se torna motivo de chacota, perde argumentos. Foi o que aconteceu com Lula, perdoado no mensalão, mas não no petrolão.

É como um furo na parede de uma represa: mais dia, menos dia, ela arrebenta.

A corrupção é esse furo na represa de Bolsonaro. Ele foi perdoado nas fake news, nos atos antidemocráticos, na demora para comprar vacinas, na escolha de um militar e não de um técnico para chefiar o Ministério da Saúde na pandemia, por receitar cloroquina e validar "tratamento precoce" ineficaz. Mas na hora em que a corrupção chegou, ao que tudo indica, nada mais vale.

A CPI da Covid teve o papel de demonstrar a sucessão de problemas e apontar a corrupção, que pode ser um ponto intransponível para Bolsonaro. Agora, a adesão às mobilizações de rua pode mover também a percepção da Câmara.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL