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Mauricio Stycer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Hang transforma CPI da Covid em "live" e lucra com exposição midiática

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Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

29/09/2021 14h23Atualizada em 29/09/2021 19h00

Por sua natureza, a de um inquérito público, eventualmente transmitido pela televisão, CPIs são eventos midiáticos. Para o bem ou para o mal, promovem a imagem de quem participa. Têm roteiro pré-definido, mas os diferentes "atores" são capazes de alterar os caminhos programados. Lembram, por isso, mais um reality show do que um programa de humor ou uma novela.

Cada sessão produz diferentes fios narrativos, muitas vezes caóticos, que são enxergados de formas diferentes por quem acompanha o embate. Quem assiste, torce por um ou outro protagonista. O herói de um espectador pode ser o vilão de outro. O resultado é positivo ou negativo, divertido ou aborrecido, dependendo do olhar de quem acompanha.

O depoimento do empresário Luciano Hang na CPI da Covid nesta quarta-feira (29) foi uma ótima oportunidade de explicitar o caráter midiático deste tipo de evento.

Hang tem as qualidades de um bom comunicador - fala bem, argumenta com facilidade, é enfático e não tem vergonha de expor a própria imagem mesmo parecendo ridículo. Refinou estes talentos nos últimos anos, fazendo propaganda das suas lojas, defendendo o governo Bolsonaro em diferentes plataformas, na internet, ofendendo os seus adversários com grosseria e participando de uma infinidade de programas de televisão, muitos deles patrocinados por sua empresa.

Por este motivo, o reconhecido talento midiático de Hang, houve divergências dentro da CPI se seria oportuno convocá-lo para depor. Muitos temiam que o empresário se saísse bem, do ponto de vista da argumentação e da imagem, no confronto com os senadores que o enxergam como vilão.

Hang dominou a cena na CPI. Transformou o evento numa "live". Exibiu um vídeo promovendo a sua rede de lojas. Trouxe cartazes com mensagens em defesa do seu direito de se expressar. Fez autopropaganda de ações de benemerência em Manaus durante a pandemia. Enfrentou os senadores com altivez e, eventualmente, arrogância, ao criticar e corrigir perguntas dos parlamentares. Se colocou na posição de vítima ("estão me cortando, que democracia é essa?").

É difícil estabelecer se Hang venceu ou perdeu o confronto do ponto de vista jurídico, legal. Mas, do ponto de vista do espetáculo, de quem assiste, o resultado foi determinado desde o início. Seus fãs vibraram e vão seguir festejando os vídeos selecionados que estão inundando as redes sociais; os que o enxergam como vilão estão compartilhando os seus piores momentos.

Num momento de tamanha polarização e difusão aberta de fake news e desinformação, uma figura com o talento comunicacional de Hang não tem como perder.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL