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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro lava as mãos como Pôncio Pilatos e não sabe fazer contas

9.fev.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante cerimônia de lançamento do programa "Adote 1 Parque" - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
9.fev.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante cerimônia de lançamento do programa "Adote 1 Parque" Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

01/03/2021 21h15Atualizada em 01/03/2021 22h00

O capitão reformado e candidato à reeleição à Presidência da República lava as mãos do sangue dos milhares de brasileiros que morrem no país, vítimas da covid-19, estimulando que descubramos os nossos rostos, que tiremos a máscara de proteção, para receber o beijo da morte.

A conta de mortos que o capitão com histórico de atleta não aprendeu a fazer é a soma desses brasileiros que fazem filas para receber tratamento.

O candidato à reeleição lava as mãos. Numa hora a culpa é do Supremo Tribunal Federal, que tirou dele o poder de escancarar portas para que o vírus entrasse com mais rapidez, ao dividir com os governos estaduais a responsabilidade pela gestão da pandemia.

Mas o capitão não se rende! Tenta transferir para os governadores o caos que estimulou receitando remédios que não tratam a covid-19. Reforçou o descaso com a vacina na vaidade das aglomerações. E fala em números assombrosos de ajuda aos estados - mas não sabe somar - obrigando os governadores a desmentir valores dos auxílios que proclamou.

Determinado a gerar o caos, ameaçou não pagar auxílio emergencial às pessoas em cujo estado os governadores decretassem medidas restritivas de circulação, tentando criar um discurso de rejeição aos limites de sair por aí. A culpa, então, pela falta de trabalho, seria dos governadores.

O candidato à reeleição quer que as pessoas saiam às ruas para trabalhar, que as fábricas, o comércio, as escolas, os bares, os restaurantes, todos os negócios voltem ao funcionamento. Como Pôncio Pilatos, lava as mãos diante dos riscos de contágio. Faz isso porque tem à sua disposição médicos, hospital, o socorro que nega aos brasileiros, em filas de espera por leitos, por tratamento. E porque "todo mundo vai morrer um dia".

Talvez pela excessiva dedicação a atividades atléticas, o capitão não tenha tido tempo para aprender a dividir. Não entende que a vacina segura o vírus, que desacelera o número de contaminados graves. Não sabe somar e depois dividir. Não entende que as doses que temos hoje das vacinas para combater a pandemia - disponíveis graças a esforços de um Doria também intempestivo e de um Instituto Butantan resiliente, enquanto a Fiocruz ainda corre atrás, para oferecer suas doses aos brasileiros - não são suficientes para garantir a abertura de todas as portas - das escolas, das fábricas, do comércio e das casas, em segurança.

A turma do candidato à reeleição envergonha as pessoas que lutaram por democratizar o acesso à saúde e criaram o maior sistema público de saúde do mundo, o SUS, e o maior programa de vacinação do planeta, o Programa Nacional de Imunização.

E foi ao lado da turma dele que posou para uma foto, depois de bate papo neste domingo, no Palácio, em Brasília. Uma imagem reveladora.

Jair Messias Bolsonaro - Jair Messias Bolsonaro - Jair Messias Bolsonaro
Presidente Jair Bolsonaro, com ministros e os presidentes da Câmara e do Senado, na noite deste domingo, no Palácio da Alvorada
Imagem: Jair Messias Bolsonaro

O general deslumbrado com o posto de ministro da Saúde, com as duas mãos nos bolsos... gesto típico de quem é inseguro, se esconde. Enquanto os colegas, braços cruzados à frente, igualmente com medo, se protegem. Pouco à vontade, mas tentando manter a pose, está Pacheco, pouco familiarizado com essas conversas de fim de semana.

De máscaras anti-covid estão Guedes, dono da loja de conveniência do posto Ipiranga, Pacheco, sócio no governo na presidência do Senado, e Lira, discípulo de Eduardo Cunha, protegendo legado dele na presidência da Câmara dos Deputados. Em prontidão, mas não alinhados.

Desmascarados estão o capitão, chefe da turma, e os generais deslumbrados com o poder: Ramos, Pazuello e Braga Neto. Desafiando a ciência, são eles a imagem do negacionismo e da subserviência ao chefe que aprendeu numa postagem do Twitter que máscara não serve proteção ao contágio do coronavírus.

Todos de mãos lavadas. Mas as mãos não estão limpas; há sangue nelas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL