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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bateu o desespero em Bolsonaro, com Lula mordendo o seu calcanhar

Bolsonaro em Chapecó, à frente de um painel que mente sobre a Covid-19 - Alan Santos/PR
Bolsonaro em Chapecó, à frente de um painel que mente sobre a Covid-19 Imagem: Alan Santos/PR
Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

08/04/2021 13h42Atualizada em 08/04/2021 14h43

A disputa é entre a vergonha e a tristeza, lideradas pela imbecilidade versus corrupção, atestada por uma Lava Jato que se desmoralizou.

Nas manchetes da imprensa do mundo inteiro o Brasil saiu da posição de escárnio, de piada, simbolizada por um capitão despreparado e desnorteado, sentado na cadeira mais importante do país. Agora, o texto que encima o noticiário internacional é de perplexidade, de terror diante de um Brasil rendido ao negacionismo, à obtusidade, que ameaça a sobrevivência da sua população e exporta vírus mortífero para o mundo, que fecha as portas aos brasileiros.

São 4 mil mortos ao dia. São 3% da população vacinada com as duas doses; são institutos de pesquisa e produção de imunizantes - Butantan e Fiocruz - lutando contra as barreiras diplomáticas construídas com vigor por um ex-chanceler beócio, agindo sob aplausos e tapinhas nas costas de aprovação de um capitão com limitações cognitivas e destemor para acossar a democracia.

Acossado com Lula nos calcanhares, segundo pesquisas, o capitão faz o seu périplo.

Participa de convescote com empresários, fazendo a via sacra que nada é mais do que um passar de pires para coleta de óbolos de apoio na sua aventura de auto continuísmo. Tudo isso enquanto outros mais de 500 economistas, empresários, banqueiros e lideranças com estatura nacional contradizem a visão surreal do ex-deputado, para quem o Brasil é um sucesso e "um dos poucos que consegue fabricar vacina". Sim, capitão, os 500 se manifestam por escrito e publicamente, contra os seus mais determinados esforços em desautorizar a ciência e a competência da pesquisa e da ciência brasileira. E outros 300 se somam cobrando competência. Ignorados pelo capitão.

Mas o capitão não brinca em serviço - ou melhor - brinca com a realidade e acena com ameaças, apresentadas em um discurso que lhe garantiu uma horda ignorante de seguidores embevecidos com o bradar anticorrupção, e agora com uma falsa defesa da liberdade. O capitão sequestra a bandeira nacional e tenta sequestrar também o significado da palavra liberdade, depois de ter se servido de um igualmente servil e ambicioso ex-juiz Sergio Moro, para amparar a defesa dele na honradez no uso do dinheiro público. Distorce significados de conteúdos que não compreende e do símbolo nacional que não respeita.

Na fala anticorrupção, o capitão reformado esquece que o dinheiro do povo tomado por redes de corruptos é o mesmo dinheiro de "rachadinhas" familiares e do patrimônio familiar que não explica mansão de R$ 6 milhões de filhinho em Brasília.

Mas a batata do capitão está assando. Desesperado vai a Chapecó, homenagear um prefeito condenado por formação de quadrilha, que cumpriu mandato de deputado federal enquanto dormia na Papuda, presídio de Brasília, colega de baixo clero e negacionista igual a ele. Tira do alforje promessas que não pode e não sabe como cumprir - brada, como todo medroso, gritos de ordem para unir a sua turma. Um repertório de slogans que mereceria a troca da sua assessoria do ódio.

A batata do capitão está assando, enquanto ele se junta a um grupo de empresários que tem em comum a ganância, a vontade de poder e o desprezo pelas práticas solidárias e descompromisso com o país. A conferência da lista dos participantes do convescote mais recente do capitão, que deseja mostrar que está se reunindo com o "empresariado", não é a lista do PIB nacional. São aspirantes vorazes.

Mas a batata do capitão está assando.

Lula vai costurando com partidos políticos um caminho que se parece mais com a conciliação, com a união do que com destempero.

O capitão vai insistir na corrupção. E apontar o seu ministério de notáveis. Quem são mesmo?

E o mundo vai apontar o dedo para o Brasil, aterrorizado com a inépcia, com o vandalismo na maneira de governar, na incapacidade de agir e na habilidade de mentir, criando falas que são ficção quando se trata de promessas.

Promessas fictícias - vãs. Vacinas que vamos produzir e imunizar a população. Como capitão? Agora que precisam ser descerradas as portas que trancou no mundo - repito - perplexo diante de tanta incúria?

E o capitão não se detém. Quer que todos saiamos às ruas para mostrar que não temos medo da morte - aquela sua serva que exige tempo extra nos cemitérios para que os mortos sejam enterrados. Aquela mesma dama a quem o capitão serve - "Todo mundo morre. É o destino, fazer o quê? Não sou coveiro". A grande dama que exige protocolos nos hospitais para selecionar a ocupação de leitos por aqueles que parecem ter mais chance de sobreviver. E deixar que partam aqueles que não têm o vigor para enfrentar o vírus.

O ex-deputado federal por 27 anos ameaça com "o seu Exército", que não vai impedir as pessoas de irem às ruas. Fala em nome da liberdade de matar e invoca um Deus desconhecido para manter os templos abertos. Não é o Deus misericordioso e onipresente - esse Deus não precisa de templos, de igrejas - e não precisa das esmolas dos pobres para manter o império na terra de pastores alinhados ao negacionismo. O Deus de misericórdia não pede o sacrifício da autoimolação do seu povo nos templos. Deus é o senhor da vida.

O mundo está aterrorizado. Estamos envergonhados, tristes, todos nós brasileiros que reconhecemos a dor, o luto permanente, as perdas evitáveis, não evitadas.

Capitão, não é corrupção. Agora a polarização é entre a vida e a morte.

A sua batata está assando. Ao discursar em Chapecó, o capitão balança de um lado para o outro. Parece que falta chão. Não. Lula está nos seus calcanhares.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL