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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Eleitor rejeita país violento e incompetente de Bolsonaro, que urra sem eco

Bolsonaro em evento do deputado Daniel Silveira - Evaristo Sá/AFP
Bolsonaro em evento do deputado Daniel Silveira Imagem: Evaristo Sá/AFP
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Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

27/05/2022 15h39Atualizada em 27/05/2022 16h39

Se o ex-capitão precisava de um balde de água fria para acalmar seu fogo, conseguiu. São 21 pontos atrás do ex-presidente Lula, segundo o Datafolha, e uma rejeição que consagra a incompetência do desgoverno.

Mas o ex-capitão insiste em estabelecer um modelo de conduta. Que nega pobres, pretos, LGBTQIA+, a Amazônia em desmanche, povos indígenas, ciência, cultura popular, arte, universidade pública, responsabilidade pela inflação, pelo desemprego e pela miséria.

Olha o mundo pela fresta da violência que anima e quer desencadear.

Exemplo ensina.

O ex-capitão é o símbolo de uma prática que demonstra - pelo discurso de ódio, pelo desgoverno, descontrole, confusão. Assim é ele, o exemplo para os seus. Esbraveja, urra como se tivesse garganta e fôlego para mobilizar a opinião pública a seu favor. O discurso é sempre a terceirização - a culpa pelas misérias é dos outros. Agora põe Deus na roda para segurar a inflação. Deus não é bolsonarista. Está mais perto dos pobres que rejeitam o ex-capitão na pesquisa de opinião.

Mas o exemplo do ex-capitão ainda inspira.

A Polícia Rodoviária Federal sai das estradas para participar de uma ação que deixa um rastro de mortes na segunda operação mais letal da história do Rio de Janeiro. Inspiram-se os agentes policiais no discurso de um ex-capitão que transfere para as balas de armas de fogo o meio fundamental para aplacar a fome, a miséria, o desemprego, a inflação.

O exemplo do ex-capitão ensina a todos aqueles que se ombreiam a ele na criação de um país cuja solidariedade, inclusão - diversidade - respeito ao meio ambiente, reconhecimento aos povos originários e confiança na ciência versus o curandeirismo inconsequente de cloroquinas e afins. E esse grupo - agora reduzido em importância na última pesquisa de opinião - aprende com o seu modelo.

A polícia entrou na comunidade da Vila Cruzeiro e matou. O ex-capitão homenageou o ato.

A Polícia Rodoviária Federal abordou um homem indefeso e o matou por asfixia num porta-malas de viatura. Genivaldo de Jesus Santos tinha 38 anos, era aposentado em virtude da esquizofrenia. Era casado com Maria Fabiana dos Santos e tinha um filho de oito anos. As respostas para a sociedade sobre a brutalidade ainda não vieram.

Também não vieram as respostas para a sociedade da violência na Vila Cruzeiro. Eram 26 mortos e a Polícia Civil "revisou" o número para 23. Três pessoas teriam sido mortas em um outro confronto próximo, mas não ali. A violência espraiada. Sem barreiras.

Mas o eleitor respondeu quando foi perguntado pelo instituto Datafolha sobre o que está pensando, neste momento, sobre o desgoverno do ex-capitão.

No horizonte, o risco de desabastecimento de diesel, fruto de um desgoverno cuja marca são erros em série. Brinca com a Petrobras, trocando gestores como se fossem ajudantes de ordens do cercadinho. As dificuldades com o preço do combustível são menos um assunto da economia e do desalinhamento e incompetência do ex-capitão e mais um delírio onipotente de alguém que acha que pode tudo. E tem um Arthur Lira para ajudar no factoide de privatização da Petrobras. Para incompetência e incúria, os dois - Lira e o ex-capitão - têm um discurso na ponta da língua: a culpa é do STF (Supremo Tribunal Federal), do ministro Alexandre de Moraes, dos governadores, dos "comunistas", numa conspiração sem limites contra o desgoverno atual. A política de "tirar o corpo fora" na sua exuberância.

E o exemplo consolida práticas.

A praga da milícia digital, inspirada também no discurso do ódio consagrado pela "equipe" do ex-capitão, é a materialização do exemplo na maneira de ser do próprio capitão. O que interessa é falar mal, gritar, xingar, fazer ironia, desqualificar o outro, a outra. Rejeita Nise da Silveira para o panteão dos heróis e heroínas nacionais - médica humanista no tratamento de pessoas com doenças mentais. A senha para liberar a violência da polícia que matou por asfixia Genivaldo, pessoa portadora de diagnóstico de doença mental.

O exemplo ensina.

E o povo aprende, de maneira dura, que o Brasil do ex-capitão é tudo o que não queremos. Eleitores ou não.