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Carlos Madeiro

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Pai, aposentado e querido na cidade: quem era o homem morto pela PRF em SE

Carlos Madeiro

Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas e com especialização em gestão de conteúdo em jornalismo pela Universidade Mackenzie, Carlos Madeiro atua há 20 anos e escreve para o UOL desde 2009, participando de grandes coberturas e fazendo reportagens e análises sobre o Nordeste e o Norte do Brasil.

Colunista do UOL

27/05/2022 04h00

Genivaldo de Jesus Santos, 38, é descrito como um homem simpático, brincalhão e querido pela população de Umbaúba, onde nasceu, no litoral sul de Sergipe. Aposentado por problemas mentais, casado há 17 anos e pai de um menino de 7, o homem negro acabou morto asfixiado dentro de uma viatura, transformada em uma câmara de gás improvisada por policiais rodoviários federais na última quarta-feira (25). Imagens gravadas com câmera de celular registraram a ação.

"Era muito conhecido na cidade, trabalhou vendendo rifas. Ele falava e cumprimentava todo mundo, era sempre muito educado, perguntava: 'Quer comprar uma rifa de um bilhete?'. Agradecia, comprasse ou não, ele agradecia", conta Alisson Felismino, blogueiro em Umbaúba e conhecido da vítima.

Genivaldo não tinha condenações, nem respondia a processos na Justiça. Ele se aposentou cedo por causa da esquizofrenia que tratava havia duas décadas. Segundo Alisson, o transtorno nunca o impediu de ser uma pessoa alegre e pacífica. "Brincava com todo mundo, e infelizmente aconteceu esse caso, que pegou todo mundo de surpresa", diz.

Genivaldo era uma pessoa querida na cidade, afirma primo e amigo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Genivaldo era uma pessoa querida na cidade, dizem sobrinho e amigo
Imagem: Arquivo pessoal

O caso chocou a cidade de Umbaúba, de cerca de 26 mil habitantes. Ontem (26) foi um dia de comoção, começando com um protesto que reuniu centenas de pessoas pela manhã. No carro de som, conhecidos de Genivaldo manifestaram indignação com a truculência policial.

"Ele era uma pessoa muito querida na cidade", conta o sobrinho da vítima Wallison de Jesus, que assistiu a toda a abordagem de Genivaldo pela PRF na quarta-feira.

De acordo com o relato de testemunhas, ele foi abordado durante uma blitz na rodovia BR-101, quando trafegava de motocicleta. Imagens mostram que três que se lançam sobre ele e tentam imobilizá-lo após encontrar uma cartela de remédios.

Em um outro vídeo, Genivaldo aparece erguendo os braços, de forma a colaborar. Ainda assim, é possível ouvir que os policiais gritam e ofendem Genivaldo. Em seguida, o homem já aparece no porta-malas, com a fumaça que o asfixiou escapando da viatura.

Família sem renda

Genivaldo era um bom pai e marido e gostava de estar ao lado da família, afirma o sobrinho. "Ele era uma pessoa calma, prestativa, que nunca se envolveu em uma briga, nunca maltratou ninguém", diz. O carinho que todos tinham por ele, afirma, motivou a manifestação de repúdio da população.

Ainda de acordo com Wallison, Genivaldo tomava remédio controlado devido à esquizofrenia, mas também tratava problemas cardíacos. "Ele era aposentado, e era a renda dele que sustentava a casa. Amanhã [hoje] vamos nos reunir para ver como faremos para ajudar [esposa e filho dele]", diz.

A viúva, Maria Fabiana dos Santos, confirmou, em entrevista à Folha após o enterro, que não sabe como fará agora para sustentar a casa. "Além de viver um pesadelo, estamos agora sem saber como faremos para nos sustentar. Era o dinheiro do meu marido que dava conta do sustento da casa e que garantia um ensino de qualidade para nosso filho", disse Fabiana, que agora busca ajuda da Defensoria Pública da União.

Ela disse que os policiais "agiram com crueldade pra matar" ao conceder entrevista para a TV Sergipe, afiliada da Globo no estado. "Eu não chamo nem de fatalidade, isso foi um crime mesmo", afirmou. "Vivo com ele há 17 anos, ele tinha havia 20 anos o problema dele, nunca agrediu ninguém, nunca fez nada de errado, sempre fazendo as coisas pelo certo, e em um momento desses pegaram ele e fizeram o que fizeram."

O corpo de Genivaldo foi enterrado ontem no cemitério da cidade, sob grande comoção, com aplausos e gritos por justiça.

Enterro de Genivaldo reuniu muita gente nesta quinta-feira em Umbaúba - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Enterro de Genivaldo reuniu muita gente nesta quinta-feira em Umbaúba
Imagem: Arquivo pessoal

"Aqui na cidade, a quem você perguntar, vão dizer quem era ele, vão dizer que era uma pessoa boa, que todos gostavam. Tanto que a manifestação foi um sucesso", conta.

Investigação

O MPF (Ministério Público Federal) em Sergipe deu 48 horas para que PRF (Polícia Rodoviária Federal) dê detalhes sobre o procedimento interno que apura a abordagem. A Procuradoria informou ainda que solicitou à PF (Polícia Federal) que instaure inquérito para investigar a conduta dos agentes. Também foram solicitadas informações já apuradas inicialmente à Delegacia de Polícia Civil de Umbaúba.

Em nota, a PF informou que o inquérito já foi aberto e que já trabalha no caso. A PRF afastou os policiais envolvidos na ação das ruas e abriu procedimento interno para apurar a conduta deles. Ouvidores da polícias de seis estados, entre eles São Paulo, pediram que os cinco sejam detidos.

Segundo o laudo do IML (Instituto Médico Legal de Sergipe), a causa da morte foi asfixia mecânica, ou seja, quando o ar deixa é impedido de chegar aos pulmões. O gás usado, segundo os policiais, foi o lacrimogêneo.

Aposentado, Genivaldo foi colocado em uma "câmara de gás" pelaa PRF em Sergipe - Reprodução - Reprodução
Aposentado, Genivaldo foi colocado em uma "câmara de gás" pelaa PRF em Sergipe
Imagem: Reprodução

PRF diz que foi fatalidade

Em nota, a PRF de Sergipe diz que, durante uma ação policial realizada, Genivaldo "resistiu ativamente a uma abordagem de uma equipe da PRF" —o que é desmentido pelas imagens, que mostram ele imobilizado pelos policiais. A corporação afirmou que, em razão de sua "agressividade", foram empregadas "técnicas de imobilização e instrumentos de menor potencial ofensivo para sua contenção e o indivíduo foi conduzido à delegacia da polícia civil da cidade".

A PRF, porém, não explica quais seriam essas técnicas e instrumentos. Ainda de acordo com a nota oficial, durante o deslocamento até a delegacia "o abordado veio a passar mal e foi socorrido de imediato ao Hospital José Nailson Moura, onde foi posteriormente atendido e constatado o óbito".