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Otávio Rêgo Barros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mísseis hipersônicos não estão disponíveis nas lojas online

Sistema de Lançadores Múltiplos de Foguetes Astros 2020, produzido pela AVIBRAS - Tereza Sobreira/Ministério da Defesa
Sistema de Lançadores Múltiplos de Foguetes Astros 2020, produzido pela AVIBRAS
Imagem: Tereza Sobreira/Ministério da Defesa
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Otávio Rêgo Barros

Otávio Rêgo Barros é general da reserva e doutor em ciências militares. Comandou as tropas brasileiras no Haiti. Foi chefe da comunicação social do Exército e porta-voz da Presidência da República.

Colunista do UOL

22/03/2022 00h00


Na semana passada, uma notícia desalentadora para a indústria de defesa nacional acendeu o alerta, mais uma vez, para o tema: A AVIBRAS - fabricante do sistema ASTROS 2020 - pediu recuperação judicial e demitiu 420 funcionários.

Material de defesa é mercado sofisticado e exige apoio governamental.

Procure na Amazon, Alibaba ou Mercado Livre e não encontrará nenhuma oferta de carros de combate ou blindados de transporte de pessoal para colocar em seu carrinho de compras.

Nem caças de última geração, nem submarinos nucleares, nem artilharia antiaérea, nem drones militares, nem mísseis hipersônicos, nada que possa ser usado para defesa de território de qualquer país.

Os fornecedores também não se mostram interessados em intermediários. Preferem o contato direto com o cliente para concretizarem as suas operações comerciais e se submetem às diretrizes de seus países-sede nessas negociações.

Não usam a lei da oferta e da procura.

A lei que valida essas transações é a de projeção de poder, que deve estar alinhada com os objetivos geopolíticos globais dessas potências detentoras de efetiva capacidade militar e diplomática.

O conflito da Ucrânia, do alto de toda revolta que ele nos provoca, é uma sirene estridente que incomoda a tantos países.

A própria OTAN, que se transformou, pouco a pouco, em uma fortaleza de papel com o fim da guerra fria, já se apercebeu de suas vulnerabilidades e vai mudar radicalmente sua postura de soberba e indiferença assumida nos últimos anos.

Muitas nações, com base nas propostas assentadas na carta das Nações Unidas, abdicaram de autoproteção, acreditando que a um simples chamado a amigos mais poderosos, esses virão em socorro. A audição desses parceiros é seletiva.

A Liga das Nações faliu em 20 anos. As Nações Unidas já não cumprem a sua propositura. Vivemos momentos similares àqueles que antecederam os conflitos da Primeira e Segunda Guerra Mundial? Alguns analistas creem que sim.

Não sou saudosista. Não olho em demasia para o retrovisor. Aprecio história e defendo que ela pode nos oferecer experiências usáveis para o presente e futuro.

As lideranças atuais estão desconectadas com a realidade. Nesse curto-circuito cognitivo, novas (velhas) potências vêm surgindo e se fortalecendo por essa dubiedade dos antigos senhores imperiais do mundo.

Há uma sensação de que a casa caiu, mas talvez ainda possa ser reconstruída. Infelizmente, o espírito de Neville Chamberlain ressuscita de tempos e tempos, influenciando as lideranças diante de conflitos.

O mundo precisará de um conjunto de novos arquitetos para a ordenação das forças mundiais. Arquitetos que se disponham a gastar dinheiro e "diplomacia da realidade" para assegurar que ventos de outra grande guerra não soprem o odor acre impregnado nos campos de batalha.

Aqui no Brasil, essa é uma discussão de pouca densidade. Não entretém nem os políticos nem a sociedade. O assunto é visto com preconceito e ausência de conhecimento.

Mas as ambições internacionais sobre o nosso país estão por aí. São os recursos naturais em terra e no mar, a amplidão territorial, o posicionamento geopolítico, a capacidade de produzir alimentos, a água doce que saciará o mundo.

Para alguns analistas da conjuntura internacional, as hipóteses de guerra em nosso subcontinente são remotas, ainda bem, mas elas existem e podem crescer com o tempo.

Vamos precisar erigir um poder de dissuasão capaz de desestimular um potencial inimigo a se engraçar e avançar sobre nossa gente e nossas riquezas.

Defesas proporcionais à dimensão de nosso território e extensão de nossas fronteiras. Uma cobertura aérea adequada para esse imenso espaço aéreo. Uma marinha moderna para patrulhar o nosso mar.

A equação é complexa. As necessidades psicossociais são inquestionáveis. Todavia, só as suplantaremos se houver segurança para enfrentá-las.

Não há receita do bolo, mas os ingredientes para a sua elaboração estão na força moral da sociedade, na decisão política, no equilíbrio diplomático e na riqueza que albergamos em nossas fronteiras.

É uma discussão que suscitará divergências. Atrairá o extremismo das ideologias, resgatando um temor pretérito e injustificado por fortalecer as Forças Armadas.

Precisaremos encará-la logo, sob pena de que, em um futuro não distante, venhamos a necessitar de zelenskys que nos liderem e armas que nos defendam quando os combates chegarem às portas das grandes cidades. Infelizmente, não os encontramos nas prateleiras das lojas online.

Paz e bem!