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Otávio Rêgo Barros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Os princípios de guerra quase esquecidos pelos russos

Ministério da Defesa da Rússia disse ter tomado a cidade de Kherson - Foto: Reuters
Ministério da Defesa da Rússia disse ter tomado a cidade de Kherson Imagem: Foto: Reuters
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Otávio Rêgo Barros

Otávio Rêgo Barros é general da reserva e doutor em ciências militares. Comandou as tropas brasileiras no Haiti. Foi chefe da comunicação social do Exército e porta-voz da Presidência da República.

Colunista do UOL

05/04/2022 00h00

Os que vão morrer te saúdam"

A evolução do conflito em território ucraniano, nessas cinco semanas passadas, sugere ser desfavorável às tropas russas.

Há sinais de que o plano de operações para a primeira fase da manobra não resistiu à realidade do enfrentamento em áreas urbanas, historicamente favoráveis ao defensor.

Some-se a esse embaraço do combate quarteirão a quarteirão, o contínuo esforço logístico do Ocidente para ressuprir as forças de defesa ucranianas com equipamentos capazes de suplantar os empregados pelas forças de Vladimir Putin.

A fotografia estratégica do início da manobra deixava claro a escolha por uma direção estratégica partindo da Bielorrússia, a Noroeste e ao Norte, uma outra tendo por origem a Rússia, a Nordeste e a Leste, e, por fim, uma direção tática iniciando-se na Crimeia com foco no Sul da Ucrânia.

Mapa de Situação - 04.04.22 - Reprodução/Ministério da Defesa do Reino Unido - Reprodução/Ministério da Defesa do Reino Unido
Mapa da ocupação da Ucrânia pela Rússia de acordo com o Ministério da Defesa Britânico (atualização em 04Abr22)
Imagem: Reprodução/Ministério da Defesa do Reino Unido

As tropas desdobradas para o ataque contra Kiev, centro de gravidade da operação, estavam divididas pelo rio Dnieper, obstáculo natural de grande vulto.

Desde o início, sofreram com as dificuldades de coordenação e controle e com a resistência ao longo da progressão.

Já as forças operando na região de Donbass, onde uma grande parte da população se mostra favorável ao pleito geopolítico da mãe Rússia, obtiveram mais sucesso em suas investidas.

Elas conseguiram estabelecer um bolsão com relativa segurança para, em seguida, avançarem em direção à península da Crimeia, criando um corredor logístico estável apoiado sobre o litoral do Mar de Azov.

As tropas estacionadas na região peninsular, desde 2014, quando a área foi anexada à Rússia, avançaram até Kherson, com a intenção de infletir para Odessa, porto essencial para a sobrevivência da Ucrânia Ocidental.

No romper da linha de partida (como sucede acontecer), a vontade do inimigo começou a interagir com a vontade do atacante, obrigando os contendores a ajustarem os planejamentos.

Muitos analistas vêm simplificando suas predições e declarando uma derrota russa antecipada. Alegam amadorismo, soberba, falta de liderança etc.

Do meu ponto de vista, são opiniões ainda prematuras. Será uma guerra encarniçada e prolongada. Considero o tempo, paradoxalmente, um fator favorável às forças do Kremlin.

Qual a base para as minhas alegações?

Os princípios de guerra que, desde Antoine-Henry Jomini, o teórico da arte da guerra que os sistematizou, orientam as operações militares. Eles nos dão pistas para as dificuldades iniciais das tropas russas.

A aparente falta de UNIDADE DE COMANDO, caracterizada pela existência de cinco grupamentos operacionais, prejudicou a interação das tropas desdobradas no terreno. Em consequência, por dispersar forças em uma ampla área, diminuiu o efeito da MASSA.

Os supostos exercícios militares, deslocando antecipadamente duzentos mil homens e enorme quantidade de meios para a fronteira com a Ucrânia, quebrou o efeito da SURPRESA.

As ações de pequenos efetivos ucranianos, por meio de emboscadas ou do uso de drones operados à distância, contra colunas de veículos russos, denotaram falta de SEGURANÇA.

O momento é de reavaliação, de recompletamento de meios materiais e humanos, e de fortalecimento da narrativa e do moral junto aos diversos públicos.

Os órgãos de inteligência ocidentais - trago como referência o Ministério da Defesa do Reino Unido (@DefenceHQ) - observam um reagrupamento de forças russas mais a Leste da Ucrânia.

Para dispor desses efetivos e equipamentos, elas vão precisar ECONOMIZAR MEIOS, retirando-os da região de Kiev e arredores.

A diminuição da quantidade de zonas de atuação e dos comandos subordinados trará SIMPLICIDADE e UNIDADE DE COMANDO, princípios abdicados na primeira fase pelo estado-maior russo.

Ao encurtar a distância para suas instalações logísticas, algumas desdobradas dentro do território russo, e forçar a que os ucranianos alonguem os seus eixos de suprimento, a MANOBRA os posiciona em vantagem para continuidade da operação.

Fugindo das paixões amadoras, que não condizem com forças profissionais, como as da Rússia e as da OTAN, a aplicação dos preceitos de Jomini invariavelmente acompanhou os exércitos vitoriosos.

As primeiras semanas dessa guerra trouxeram grandes ensinamentos. Serviu de freio de arrumação. Reativou conceitos basilares olvidados.

A partir de agora: que comecem os jogos!

O espírito do urso russo sempre demonstrou determinação e desapego pela vida. O Ocidente, por sua vez, comprovou, ao longo do século 20, sua fortaleza moral diante dos desafios para a sobrevivência da humanidade.

Quem vencerá? A conferir, com atenção e serenidade.

Paz e bem!