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Plínio Fraga


Chegar a Santiago é mergulho no túnel do tempo de junho de 2013 no Brasil

Manifestante ferido recebe atendimento médico em protesto contra o governo do Chile em Santiago na sexta-feira - Jorge Silva - 14.nov.2019/Reuters
Manifestante ferido recebe atendimento médico em protesto contra o governo do Chile em Santiago na sexta-feira Imagem: Jorge Silva - 14.nov.2019/Reuters
Plínio Fraga

Plínio Fraga é jornalista desde 1989. Foi editor-chefe da revista Época, editor de política da Folha e do Jornal do Brasil e repórter da revista Piauí e de O Globo. Lançou em 2017 a biografia "Tancredo Neves, o príncipe civil" (editora Objetiva). É doutorando Mídia e Mediações Socioculturais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A coluna se propões a olhar com lupa o ir-e-vir e os desvãos da política. Análises, perfis e reportagens sobre eleições, governos, congresso, assembleias, marketing político, pesquisas eleitorais, as redes sociais como nova praça pública, debates de ideias e políticas públicas, como segurança, redução da desigualdade e crescimento econômico

Colunista do UOL

20/11/2019 04h00

SANTIAGO - Chegar a Santiago hoje parece uma viagem no túnel do tempo para o Brasil de junho de 2013. A crise social e política chilena completa 33 dias longe de uma solução imediata. O saldo de violência _ 23 mortos, mais de 2.000 pessoas feridas e 15 mil presas _ mostra que a situação chilena está em patamar muito mais grave do que o Brasil chegou naquele ano em que ninguém entendeu o que estava acontecendo nas ruas. A incapacidade de interpretação clara e a certeza de que o sistema político está dando as respostas erradas é que aproximam os dois episódios.

A caminhada nos arredores da praça Itália, no centro de Santiago, expõe o centro nevrálgico da crise. Grande parte do comércio está ou totalmente fechado ou com proteções de madeira ou aço que deixam apenas minúsculas portas abertas. Uma movimentação maior de pessoas, correrias ou simples boatos fazem com que todos fechem as portas.

Grupos de jovens são vistos esparsadamente. Eles são o coração dos protestos. Não deixam que escolas e universidades funcionem. Nesta terça, impediram que uma estação do metrô que havia sido depredada fosse reaberta. Desde 19 de outubro, protagonizam incidentes violentos todos os dias _por vezes atacam primeiro, por vezes respondem a ações da polícia. Jogam pedras e recebem de volta bombas de gás lacrimogêneo e balas de armas supostamente não letais. Mais de 200 pessoas foram atingidas nos olhos, obrigando que os carabineiros anunciassem nesta terça que deixariam de usar balas de borrachas que ao choque se desmembravam em bolinhas menores ("perdigón de gomas") com potencial de ferimento imenso. Há relatos de homicídios, espancamentos, abusos sexuais e lesões de severidade variável contra as forças de segurança, de acordo com organizações internacionais como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional.

Em resposta à violência da polícia, grupos promoveram 131 ataques a quartéis das forças de segurança ferindo ao menos 50 policiais. Sete desses ataques ocorreram desde segunda-feira

A economia chilena está parada, o que deve provocar queda radical do PIB, aumento do desemprego e, em consequência, da crise social.

O aumento do preço do bilhete do metrô de Santiago foi a faísca que desencadeou uma explosão social sem precedentes desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). A principal reivindicação dos manifestantes é acabar com a desigualdade de um modelo econômico neoliberal e garantir direitos fundamentais como a saúde, a aposentadoria e a educação.

Em 15 de novembro, as principais forças políticas chilenas anunciaram um acordo em resposta à crise. Em abril de 2020, será organizado um plebiscito para que os chilenos votem se desejam a elaboração de uma nova Constituição. Sendo o sim vencedor, os chilenos devem também escolher o mecanismo pelo qual deve ser elaborada a nova Carta: uma assembleia mista com parlamentares e lideranças avulsas ou Assembleia Constituinte composta apenas por cidadãos eleitos para esse fim. O que não fica claro é o que acontecerá até abril de 2020 e o que fazer com os milhares que continuam nas ruas.

Plínio Fraga