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Plínio Fraga


No Chile inflamável, a Constituição virou best-seller

Protestos na Praça Baquedano, em Santiago, Chile - Susana Hidalgo/Reprodução Instagram @su_hidalgo
Protestos na Praça Baquedano, em Santiago, Chile Imagem: Susana Hidalgo/Reprodução Instagram @su_hidalgo
Plínio Fraga

Plínio Fraga é jornalista desde 1989. Foi editor-chefe da revista Época, editor de política da Folha e do Jornal do Brasil e repórter da revista Piauí e de O Globo. Lançou em 2017 a biografia "Tancredo Neves, o príncipe civil" (editora Objetiva). É doutorando Mídia e Mediações Socioculturais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A coluna se propões a olhar com lupa o ir-e-vir e os desvãos da política. Análises, perfis e reportagens sobre eleições, governos, congresso, assembleias, marketing político, pesquisas eleitorais, as redes sociais como nova praça pública, debates de ideias e políticas públicas, como segurança, redução da desigualdade e crescimento econômico

Colunista do UOL

22/11/2019 04h00

SANTIAGO - O livro mais vendido nas livrarias do Chile é a Constituição do país. Com a proposta de plebiscito para abril de 2020 para decidir pela elaboração ou não de uma nova Carta Magna, os chilenos resolveram ler a Constituição como romance.

A Carta de 1980, elaborada sob a ditadura de Augusto Pinochet, representa a última fortaleza ideológica da Guerra Fria: pouco Estado, muito mercado e uma defesa integral da propriedade privada sem fim social. Reescrevê-la, argumentam os políticos dos mais variados partidos que acordaram reformá-la, implica aceitar o fim de um ciclo histórico.

Há dúvidas se _ à medida que as bandeiras sociais levadas às ruas se diluem _ reescrever a Constituição conseguirá sintetizar todas as causas dispersas no protesto. Os políticos acham que sim; as lideranças dos movimentos sociais dizem que não.

O Chile reduziu a pobreza _ de cerca de 40% da população em 1990, quando a democracia começou, para menos de 7% da população atualmente. Os indicadores de desigualdade, no entanto, variaram muito pouco: o um por cento da população mais rica acumula mais de 25 por cento da riqueza.

Os especialistas chilenos estão a repetir que a geração que saiu da pobreza graças ao modelo econômico liberal atinge a velhice com uma pensão ridícula, pagando as dívidas do estudo universitário dos filhos, comprando os remédios mais caros da América Latina e tendo custo de vida mais elevado do que o de muitos países europeus, continente em que há maior proteção social.

O problema da tentativa de pacificação por meio da Constituinte é a total desconfiança da população em relação às instituições. Executivo, Legislativo e Judiciário estão sob crítica severa, mas o mesmo também ocorre com a Igreja, o Exército e a mídia.

Encerrando a série de três artigos sobre a convulsão no Chile, reproduzo as palavras de ordens das manifestações e as pichações nas ruas que dizem tudo sobre o estado das coisas:

A TV mente;

A mídia nos faz invisíveis;

As paredes falam o que a imprensa cala;

Falam da violência das ruas aqueles que perpetuam a violência diária da usura;

A luta com o fígado conquista até o inútil;

A violência é eloquente;

O problema é o sistema;

Rebeldia é alegria;

O Chile será a tumba dos livres;

Santiago é uma cidade inflamável;

Quando se perdeu a razão?

Tempos melhores virão.

Plínio Fraga