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Plínio Fraga


Na crise do aço, imprensa mundial critica submissão de Bolsonaro a Trump

Siderurgia brasileira se beneficiou do confronto dos EUA com a China - Reuters
Siderurgia brasileira se beneficiou do confronto dos EUA com a China Imagem: Reuters
Plínio Fraga

Plínio Fraga é jornalista desde 1989. Foi editor-chefe da revista Época, editor de política da Folha e do Jornal do Brasil e repórter da revista Piauí e de O Globo. Lançou em 2017 a biografia "Tancredo Neves, o príncipe civil" (editora Objetiva). É doutorando Mídia e Mediações Socioculturais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A coluna se propões a olhar com lupa o ir-e-vir e os desvãos da política. Análises, perfis e reportagens sobre eleições, governos, congresso, assembleias, marketing político, pesquisas eleitorais, as redes sociais como nova praça pública, debates de ideias e políticas públicas, como segurança, redução da desigualdade e crescimento econômico

Colunista do UOL

03/12/2019 04h00

A imprensa mundial é um bom termômetro do ganha-e-perde das relações internacionais. E o noticiário de hoje mostra que o projeto de aliança irrestrita dos presidentes conservadores do Brasil e dos EUA não resiste ao desarranjo entre suas economias.

O jornal inglês The Guardian resumiu a intenção do presidente americano, Donald Trump, de taxar a importação de aço brasileiro como "um tapa simbólico" na cara do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. O Financial Times, que batizara Bolsonaro de Trump tropical, qualificou o anúncio do americano como um "golpe embaraçoso" para o presidente brasileiro, "que colocou a relação com os EUA no centro de sua agenda política internacional, incluindo o estreitamento dos laços comerciais".
The Wall Street Journal, que chamara Bolsonaro de mini-Trump, previu que as novas tarifas "minarão o apoio político" às reformas liberais da agenda brasileira. The New York Times, que identificou Bolsonaro como "espelho de Trump", informou que o anúncio foi "particularmente chocante" para o presidente brasileiro, "que se esforça bastante para fortalecer os laços com o governo americano, com pouco resultado a mostrar". O jornal reproduziu a perplexidade de Bolsonaro quando questionado pelos repórteres sobre o tema: "Que alumínio?" O francês Les Echos, que dissera que Bolsonaro era um Trump ainda mais despenteado, ressaltou que o brasileiro insiste em se entusiasmar com o colega americano e se disse pronto para ligar para Trump para pedir a revisão da taxação.

No cômputo geral da leitura da imprensa internacional, a imagem de Bolsonaro saiu tisnada por sua submissão inocente, após a punhalada econômica desferida por aquele com quem afirma ter "linha direta". [Otto Lara Resende dizia que para abraçar ou apunhalar é preciso estar perto...]

Na discussão econômica em si, a imprensa internacional desaprovou a atitude de Trump. Empresários, economistas e jornalistas foram unânimes em rechaçar a tese de Trump de que o Brasil e a Argentina têm estimulado intencionalmente a desvalorização de suas moedas para melhorar o preço internacional do que produzem. Todos os mercados de ações dos EUA caíram com temor do aumento das tensões comerciais no mundo. Centros empresariais argumentaram que a medida, a ser efetivada em data incerta, prejudicará também as empresas americanas que usam o aço brasileiro.

O resumo da ópera pela imprensa internacional foi de que de fato a longa guerra comercial dos EUA com a China beneficiou brasileiros e argentinos, porque os chineses compraram mais produtos agrícolas dos países latino-americanos em retaliação.

"Quando você acha que o presidente Trump alcançou um momento de equilíbrio comercial, lá vai ele de novo. O Mount Tariff entrou em erupção mais uma vez, diminuindo a esperança de calma econômica no ano das eleições americanas (2020)", lamentou o WSJ. "Ele está errado em todos os aspectos", criticou o jornal.

Em geral, o tom do noticiário econômico foi de que, enquanto negocia com a China, Trump deveria construir alianças comerciais com o resto do mundo e reduzir os temores protecionistas. Em vez disso, ele usa tarifas como uma ferramenta coercitiva a qualquer momento ou por qualquer motivo, "mesmo contra amigos que agiram de boa-fé".

Jornais do mundo inteiro reproduziram trecho de entrevista de Bolsonaro à rádio Itatiaia, de Belo Horizonte: "Isso é munição para o pessoal opositor aqui no Brasil. Vou ligar para o presidente Trump, a economia deles é dezena de vezes maior do que a nossa. Não vejo isso como retaliação. Vou conversar com ele para ver se não nos penaliza com essa sobretaxa ao aço e alumínio. Tenho quase certeza de que ele vai nos atender."

Bolsonaro ainda imagina que tem um amigo na Cada Branca. Ignora assim a velha máxima política americana que diz: se quiser amizade em Washington, compre um cachorro.

Plínio Fraga