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Rogério Gentile

Record é condenada por revelar esconderijo de mulher agredida pelo marido

Luiz Bacci , apresentador do Cidade Alerta - Reprodução/Instagram
Luiz Bacci , apresentador do Cidade Alerta Imagem: Reprodução/Instagram
Rogério Gentile

Rogério Gentile é jornalista formado pela PUC-SP. Durante 15 anos, ocupou cargos de comando na redação da Folha de S.Paulo, liderando coberturas como a dos ataques da facção criminosa PCC, dos protestos de 2013 e das eleições presidenciais de 2010 e 2014, entre outras. Editou a coluna Painel e o caderno Cotidiano e foi secretário de Redação, função em que era responsável pelas áreas de produção e edição do jornal. Atuou como repórter especial da Folha de 2017 a 2020 e atualmente é colunista.

Colunista do UOL

27/07/2021 11h50

A Justiça de São Paulo condenou a Rede Record por ter revelado no programa Cidade Alerta o esconderijo de uma mulher agredida pelo marido e que escapara de uma tentativa de assassinato.

T.C.P. avisou ao marido, R.V.S, com quem tem dois filhos, que pretendia se separar. Dias depois, ainda vivendo na mesma casa, o rapaz pediu a ela que o acompanhasse ao hospital, pois estava sentindo fortes dores na cabeça.

No caminho, ele a atacou com uma faca, mas T.C.P. conseguiu se jogar do veículo. Ao cair, torceu o pé e acabou sendo arrastada pelo companheiro, que lhe desferiu socos e pontapés. Segundo o relato que ela fez à polícia, em certo momento, o marido voltou para o automóvel no intuito de atropelá-la, mas ela foi salva pelo motorista de um outro carro.

Orientada pela polícia, T.C.P. não voltou para casa e se escondeu na residência dos seus pais. Os policiais insistiram para que ela não contasse a ninguém sobre o local. Como o rapaz estava foragido, temiam que ele tentasse cometer o crime novamente.

Oito dias depois da tentativa de assassinato, em julho de 2020, o Cidade Alerta, apresentado por Luiz Bacci, exibiu uma reportagem sobre o caso. Uma repórter procurou o pai de T.C.P. e, de acordo com o relato da jovem à Justiça, gravou uma entrevista sem que ele soubesse. Na conversa, o pai acabou revelando que ela estava escondida na sua residência. O programa foi ao ar com fotos da jovem e todos os detalhes sobre o seu paradeiro.

"A partir daquele momento, T.C.P., seus filhos e seus pais passaram a viver uma apreensão ainda maior, não dormindo, mal se alimentando, não saindo de casa nem para ir ao mercado, sendo necessária a vigília dos vizinhos para qualquer suspeita", afirmou a defesa da jovem no processo por danos morais aberto contra a emissora. "Foi um circo armado por essa emissora de TV, muito conhecida por telejornais populares, que se aprofunda em temas como esse (tentativa de homicídio), revestido de reportagem investigativa, que de investigativa não tem nada."

A Record disse à Justiça que a acusação não procede. Declarou que as filmagens foram realizadas em local público e que o pai concordou em conceder a entrevista. "Não foi demonstrada qualquer instrução da polícia indicando que ela buscasse esconderijo para evitar que o seu algoz a encontrasse", afirmou a defesa da Record. "Não bastasse, ela buscou refúgio na residência de seus genitores, cujo endereço certamente era de conhecimento de seu ex-companheiro, com o qual conviveu por 12 anos."

O juiz Fernando Henrique Biolcati não aceitou a argumentação da emissora e condenou a Record a pagar uma indenização de R$ 15 mil. "Não existia nenhuma necessidade e cabimento de se informar exatamente onde a autora [do processo] se encontrava, sendo tal dado irrelevante para o relato dos fatos de interesse social", afirmou na sentença. "Houve um claro excesso, descabido."

A Record ainda pode recorrer da decisão. A coluna procurou a defesa da emissora, mas não obteve resposta.

O marido se entregou à polícia.