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Rogério Gentile

Professora perde R$ 99 mil achando que namorava milionário americano

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Imagem: Arte UOL
Rogério Gentile

Rogério Gentile é jornalista formado pela PUC-SP. Durante 15 anos, ocupou cargos de comando na redação da Folha de S.Paulo, liderando coberturas como a dos ataques da facção criminosa PCC, dos protestos de 2013 e das eleições presidenciais de 2010 e 2014, entre outras. Editou a coluna Painel e o caderno Cotidiano e foi secretário de Redação, função em que era responsável pelas áreas de produção e edição do jornal. Atuou como repórter especial da Folha de 2017 a 2020 e atualmente é colunista.

Colunista do UOL

13/12/2021 09h57

Uma professora aposentada de 68 anos perdeu cerca de R$ 99 mil achando que estava socorrendo seu namorado, que havia conhecido nas redes sociais e ela acreditava ser um milionário americano.

A mulher contou à polícia que recebera uma solicitação de amizade no Facebook de uma pessoa que dizia se chamar Gary Rone Wolfgang, um engenheiro da Califórnia, muito rico, que afirmava vender vacinas em diversos países.

As conversas prosseguiram pelo WhatsApp. Carinhoso, ele a conquistou. Dizendo-se apaixonado, Wolfgang prometia vir ao Brasil assim que terminasse uma viagem de negócios para a Austrália, que fazia de navio.

Em certo momento, ele passou a dizer que o capitão do seu navio havia alertado à tripulação que a embarcação seria atacada por piratas. Por precaução, o americano afirmou que havia colocado seus bens pessoais, inclusive dinheiro, em uma caixa e a enviara para o Brasil.

O namorado disse, então, que a caixa, com bens e valores, estava presa na alfândega e pediu à mulher que pagasse as tarifas para que o material pudesse ser liberado. Dizia que, assim que possível, faria o ressarcimento das despesas. A professora fez quatro depósitos na conta indicada por ele, num total de R$ 98,9 mil.

De acordo com seu depoimento feito à Justiça, a mulher somente começou a desconfiar de que caíra em um golpe quando ele indicou uma rota absurda para o seu navio. O filho também, ao usar o computador da mãe, percebeu que ela havia feito as transferências de dinheiro em grandes quantias. Ao questioná-la, descobriu a história e a levou para prestar queixa à polícia.

A partir da quebra de sigilo bancário da conta que recebeu os depósitos, a polícia afirma que o milionário americano é, na verdade, Fidelis Isolor, um nigeriano residente no Brasil.

Nas duas vezes em que foi interrogado, Fidelis optou pelo silêncio. A defesa apresentada por seus advogados à Justiça afirma que "as provas colhidas pela investigação não são aptas a ensejar uma sentença condenatória, pois não ficou clara qual foi a atuação do acusado".

De acordo com a defesa, a professora aposentada não teve contato pessoal com os estelionatários, "o que traz dúvida insuperável quanto a autoria criminosa". "Não se sabe nem em que país o estelionatário se encontra. A investigação policial também foi inconclusiva, não se podendo afirmar com certeza qual foi a participação do acusado."

Declarou ainda que a versão da acusação não é crível. "Não é lógico que um grupo de pessoas capaz de articular uma fraude tão bem desenvolvida forneça, para o depósito dos valores pelas vítimas, contas bancárias de titularidade de seus próprios integrantes."

Fidelis foi condenado em primeira instância a devolver o valor à vítima, bem como a uma pena de reclusão de três anos e seis meses em regime inicial aberto. A pena foi substituída por prestação de serviços à comunidade. Damaris Pereira, titular da conta bancária para a qual a professora transferiu o dinheiro, recebeu a mesma condenação.

Ela nega ter participado do crime e disse que apenas emprestou a conta bancária para o seu antigo namorado, que havia comercializado alguns produtos e que, em razão de uma dívida, estava impossibilitado de movimentar a sua própria conta.

Afirma que ficou com alguns percentuais dos depósitos como pagamento pelo empréstimo da conta bancária, mas que não sabia que os valores eram provenientes de um crime. Diz ser também uma vítima.

Ambos recorreram da sentença. O Tribunal de Justiça ainda não julgou o recurso.