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Ronilso Pacheco

Biden terá de lidar com os "EUA profundos", onde presença de Trump continua

Trump representa uma face dos EUA que Biden (foto), que promete ser um presidente de todos os americanos, terá de afagar - REUTERS/Kevin Lamarque
Trump representa uma face dos EUA que Biden (foto), que promete ser um presidente de todos os americanos, terá de afagar Imagem: REUTERS/Kevin Lamarque
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

07/11/2020 13h52

A vitória do democrata Joe Biden, que será o novo presidente dos Estados Unidos, não muda uma questão fundamental, uma impressão que em algum momento dominou o imaginário dos democratas: não foi uma vitória "de lavada", e nem sequer esmagadora em muitos estados onde se acreditava que aconteceria.

Os democratas estão lidando com uma realidade incômoda e desconfortável, que é o fato de que Trump se mostrou um adversário mais forte do que se pensava, com uma adesão muito maior do que seus oponentes contavam.

Um grande símbolo desta eleição será a Pensilvânia. Biden sempre fez questão de enfatizar o estado como sendo o local onde nasceu, no condado de Scranton. Além disso, havia a expectativa de que a má gestão de Trump diante da pandemia influenciasse nos votos do presidente.

O que está acontecendo é uma angustiante espera pelos resultados da Pensilvânia, que, poderíamos dizer, por pouco, não é levada por Donald Trump novamente com folga. Biden é um democrata que, mais uma vez, é salvo pelas cidades. Ele garantiu sua cidade natal, Scranton, Harrisburg e a populosa Filadélfia. São "lagos azuis" em um oceano de liderança vermelha. Incluindo as cidades rurais.

Na última eleição, a equipe de Hillary Clinton errou significativamente ao minimizar a população branca rural, e agir como se esta parcela da população dos Estados Unidos, sobretudo no meio-oeste, não fizesse parte da equação. Sendo assim, a campanha da democrata não montou exatamente um plano de comunicação com este grupo.

Quando identificou a necessidade de uma reação, já era tarde demais, Trump dominou Clinton na zona rural. Em Wisconsin, Michigan e Pensilvânia, além de Flórida, Carolina do Norte e Arizona, o desempenho de Trump nas partes rurais desses estados foi suficiente para compensar as perdas de votos que ele teve nas cidades.

Terra, trabalho e igreja

O Partido Democrata tinha isso em mente, e, evidentemente, tentou cuidar disso nesta eleição. Mas, os resultados até agora, mesmo em estados em que as contagens seguem, mostram que os democratas continuam incomunicáveis com esta parcela da sociedade americana.

O slogan de Trump, "Make America Great Again" (Fazer a América Grandiosa Novamente), conecta com este grupo, fazendo lembrar de um dia em que pequenas cidades prosperavam e escolas rurais eram melhores do que as escolas urbanas.

Um tempo em que a sua fé cristã, sua sociabilidade forjada a partir da igreja e da vivência eclesial, eram respeitadas e consideradas, que as famílias em seu formato patriarcal, ou "tradicional", era a "normalidade' e o dia a dia comum. Eles tinham a terra, tinham o trabalho e tinham a igreja, e isso bastava.

A religião foi, certamente um link fundamental. Trump sempre buscou esta conexão, e isto lhe valeu empatia e votos. Ele não precisava ser o cristão mais exemplar (e nem de longe ele é, o que lhe valeu uma ligeira perda de apoio entre evangélicos brancos), ele precisava apenas mobilizar a construção de uma América cristã.

Polarização permanece, e deve se acirrar

No meio-oeste americano, Trump manteve seu apoio em uma região que foi pérola das indústrias de aço e carvão durante grande parte do século 20, mas que, hoje, seus moradores rurais e pobres lutam por um lugar no mundo. Em suma, eles estão em busca da "Grande América" novamente.

O grande recado desta eleição é que o país está profundamente afetado. E "profundamente" aqui diz respeito aos "Estados Unidos profundos".

Este grupo ainda está conectado a Donald Trump. Neste grupo também há mulheres, negros, latinos, diversos imigrantes, que apoiam a condução de Trump nas pautas raciais, e, sobretudo, apoiam sua firmeza com a imigração ilegal.

Em outras palavras, não há porque acreditar que os Estados Unidos branco, rural ou suburbano, empobrecido ou classemediano, que deu vitória a Trump em diversos condados estaduais, simplesmente "entreguem" o país. Os democratas não sabem como entender e falar com este grupo, mas não pode ignorar mais esta distância. O país pós-eleição está muito mais dividido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.