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Ronilso Pacheco

EUA: Não foi ataque à democracia, foi resposta aos protestos antirracistas

Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

08/01/2021 04h02

O que aconteceu no Capitólio na quarta-feira não é um surto, um ato extremo de apoiadores inconformados. Eu arrisco dizer que Donald Trump —e sua "liderança"— é o menos importante. O episódio no Capitólio é a continuidade da reação branca fascista e nacionalista americana contra os protestos antirracistas que varreram o país.

Sim. A grande ligação entre a turba vista em Washington com a derrota de Trump é que a vitória de Trump permitiria que esta reação fosse feita usando as vias da "democracia" americana, como sempre foi feito.

A supressão de votos no sul, as decisões da Suprema Corte, a violência policial, a repressão da tropa de choque, o encarceramento, a deportação, o toque de recolher, a criminalização dos protestos, todas essas medidas são feitas de maneira "democrática", elas são a "Lei e a Ordem" que Trump sempre evocou.

Se a sociedade em geral, e a grande imprensa em particular, não tiverem repertório e recurso de palavras para distinguirem o que foram os protestos antirracistas no ano passado e o que aconteceu no Capitólio nesta última quarta-feira, nós temos um grande problema.

Manifestações e protestos são o que foi visto nos Estados Unidos em junho, julho, agosto e adiante, no calor das reações contra o assassinato cruel e ao vivo de George Floyd. Ali a democracia foi violada, e por um agente do Estado.

No episódio no Capitólio, a democracia estava sendo exercida na sua forma "clássica-institucional", e ela sofreu um ataque terrorista deliberado. O terrorismo doméstico da quarta-feira, com anuência do ainda presidente Trump, foi facilitado pela letargia da segurança do próprio Capitólio.

EUA são implacáveis contra negros, e tolerantes contra os brancos

Os Estados Unidos são ágeis e implacáveis na vigilância dos que são considerados ameaças tradicionais do poder americano, da lei e da ordem, principalmente pretos, imigrantes, legais e ilegais, latinos. Este mesmo poder é absolutamente tolerante com seus nacionalistas brancos que ostentam racismo, xenofobia e intimidação ao exibirem as suas armas "legais".

Por mais que Biden mantenha a retórica da união de um país rachado, ele provavelmente sabe que esta união, considerando o pessoal que estava em Washington na quarta-feira, será impossível. Este pessoal se animou com a vitória de Trump, e viu o ambiente necessário para que suas ideias, sua ideologia reacionária, racista, machista e bélica pudessem sair do armário com força total.

Os Estados Unidos sempre consideraram a democracia forte e exemplar, e assim construiram e consolidaram uma narrativa de reputação e ostentação, mesmo ciente de que sua estabilidade democrática foi construída, e mantida, sobre sangue negro e pobre.

A própria existência do Colégio Eleitoral, e a maneira como ele se organizou, foram resultado de uma busca estratégica de conciliar voto popular com manutenção da escravidão e negros sem o direito de votar, nos primórdios da "democracia" americana.

Fascistas foram embora para lutar outro dia

William F. Buckley, considerado um dos principais nomes do conservadorismo e da política americana, escreveu um ensaio clássico na década de 50, chamado "Por que o Sul deve prevalecer", e, ali, os americanos brancos "têm o direito de tomar as medidas necessárias para prevalecer, política e culturalmente". É o que tem sido feito até hoje.

Como disse Seyward Darby no New York Times, "a extrema direita nos disse o que havia planejado. Nós não ouvimos". E Darby também diz que a maioria dos fascistas foi embora, sem algemas, para lutar outro dia.

Eles voltaram na última quarta-feira, da mesma maneira que fizeram em 2017, na Universidade da Virgínia. Uma multidão branca fascista invadiu o campus da universidade com tochas e bandeiras de alusão aos confederados, gritando "white lives matter". Mais uma vez, espancaram, feriram, intimidaram.

Então eles não apenas voltarão, como inspirarão os países em que a ideologia fascista e de extrema direita já está animada. A recusa do governo brasileiro em repudiar a invasão terrorista no Capitólio diz muito sobre o efeito sedutor que a ousadia dos brancos com roupa de viking teve sobre a mente bolsonarista. Racistas e fascistas se reconhecem e se admiram.