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Ronilso Pacheco

No Brasil, Bolsonaro e covid matam juntos. São cúmplices

18/03/2020 - O presidente da República, Jair Bolsonaro, se atrapalha ao recolocar máscara no rosto durante coletiva - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
18/03/2020 - O presidente da República, Jair Bolsonaro, se atrapalha ao recolocar máscara no rosto durante coletiva Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

21/12/2020 15h24

Janeiro de 2020. Perguntado sobre o avanço do novo coronavírus e a possibilidade dele chegar ao Brasil, Bolsonaro se limitou a dizer que "não é uma situação alarmante".

Em março, a Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia. Este também foi o mês da primeira morte registrada no Brasil. Perguntado sobre o avanço da doença e sobre as mortes que começavam a acontecer, Bolsonaro afirmou: "É a vida. Todos nós iremos morrer um dia".

Em abril, o país já registrava mais de 5 mil mortes pelo coronavirus. "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?" —foi o que disse o presidente.

Daí em diante, a pandemia no Brasil avançou velozmente, e foi ceifando a vida de dezenas de milhares de brasileiras e brasileiros, todos os dias, a todo tempo. Diante disso, as frases de Bolsonaro não são apenas lamentáveis, elas foram criminosas. A postura do presidente da República diante de uma crise é referencial, e determinante para salvar vidas ou condená-las a morte.

Um ano se passou, e Bolsonaro não mudou em nada sua postura debochada, indiferente, irresponsável, inconsequente e desrespeitosa com as vidas perdidas. O governo segue perdido, confuso, sem plano definido, sem transparência nas informações, com Bolsonaro alimentando picuinhas políticas em torno da vacinação.

Bolsonaro, desde o início, usou a sua liderança para "desafiar" a pandemia, gerou aglomerações, ignorou protocolos, criticou as medidas propostas por cientistas e OMS, fez piadas em diversas situações. Definitivamente, o presidente conduziu parte da população brasileira ou para morte, ou para a indiferença, ou para o risco.

A Comissão de Ética Pública da Presidência da República, se não fosse um penduricalho bajulador do presidente e suas façanhas, deveria, há muito tempo, ter se posicionado contra as posturas infames de Bolsonaro diante da pandemia. Ele não foi apenas antiético, ele tem sido cruel.

Suas frases e piadas não são divertidas, e não são aleatórias. Não é a "espontaneidade" de um homem público que fala o que pensa. É a conivência de um presidente com a dor e com a morte. Tornou-se um problema o chefe da Comissão de Ética Pública (o próprio presidente) ser uma figura permanentemente truculenta, antiética e desrespeitosa.

Aliás, se quando age de forma espontânea, em vez de mostrar solidariedade e seriedade, o presidente ignora as dezenas de milhares de mortes por covid no seu país, fala o que não sabe, e faz piadas com a doença como se fosse um adolescente, é ainda pior saber que somos governados por alguém tão sádico, incompetente e desrespeitoso.

Bolsonaro faz afirmações infundadas, com dados que parece tirar da cabeça, sem qualquer constrangimento de colaborar com o caos. Em setembro, o Brasil passava dos 143 mil mortos por covid-19. Mas Bolsonaro, em discurso, disse: "estamos praticamente vencendo a pandemia".

Esta não era a opinião de um cidadão comum, não era um chute. Esta foi a afirmação do presidente da República. Se Bolsonaro soltou uma frase como essa sem qualquer amparo na realidade, de dados, de pesquisa, ele não cometeu uma gafe. Ele feriu a ética do seu cargo. Se fake news preocupa o Supremo Tribunal Federal, as afirmações delirantes de Bolsonaro são tão criminosas e ameaçadoras quanto.

Em novembro, um grupo de pesquisadores soltou uma nota técnica em que alertavam o país para o risco de uma segunda onda da pandemia. Bolsonaro criticou a nota e disse que segunda onda era "conversinha". Fechamos novembro com mais de 173 mil mortes, e o presidente ridiculariza uma nota técnica emitida por pesquisadores, sem argumentar nada que pudesse contrariar os cientistas. Ele simplesmente solta.

Na sofrível entrevista que deu ao seu filho, Eduardo, o presidente afirmou que "a pandemia, realmente, está chegando ao fim". Que fontes e dados amparam a afirmação do presidente da República? Bolsonaro ignora o (ou aposta no) impacto que esta afirmação pode ter sobre o cotidiano das pessoas nos estados, onde muitos já estão ignorando os protocolos e se aglomerando de maneira irresponsável.

O presidente não pode falar o que quer, a todo momento, de qualquer jeito. Não em uma situação como essa. Não pode seguir brincando, zombando, fazendo piada em meio a dor da perda de dezenas de milhares de famílias e isso ser considerado uma "espontaneidade" sem consequências.