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Ronilso Pacheco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Templos abertos: Fundamentalismo ignora 4.000 mortes em nome dos 'costumes'

Cruzes no cemitério Parque Taruma em Manaus durante a pandemia - Bruno Kelly/Reuters
Cruzes no cemitério Parque Taruma em Manaus durante a pandemia Imagem: Bruno Kelly/Reuters
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

07/04/2021 15h57

O fundamentalismo reformado (de igrejas calvinistas) e (neo)pentecostal estão longe de qualquer semelhança da mensagem de Jesus.

Seu cuidado com as pessoas está cada vez mais comprometido com qualquer coisa —inclusive com a morte— desde que preserve o que consideram ser a "pauta dos costumes" deles.

É impossível pensar no ponto que o Brasil chegou nas últimas semanas letais da pandemia sem que se leve a sério as implicações da base religiosa-teológica que esses grupos têm proporcionado.

Já não há mais fé nem sensibilidade religiosa. Eles são os fornecedores da "consciência tranquila" de quem governa um país em que o número de mortes só aumenta diariamente.

O STF (Supremo Tribunal Federal) julga hoje (7) se libera ou não a realização de missas e cultos presenciais em meio ao agravamento da pandemia de covid-19 no país.

O julgamento acontece após decisão do ministro Kassio Nunes Marques, cuja liminar permite a abertura dos templos. A liminar de Nunes atendeu à ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) proposta pela Anajure (Associação Nacional dos Juristas Evangélicos).

A Anajure alega ter tomado sua decisão de propor a ADPF a partir dos casos que recebeu com o seu Observatório das Liberdades Fundamentais, que eles definem como tendo o objetivo de "reunir denúncias de violações às liberdades civis fundamentais, especialmente liberdade religiosa, de expressão e de movimento".

No entanto, grande parte dos casos dispostos no site da associação (neste momento há 55) trata de restrições impostas por governantes e autoridades sanitárias a instituições religiosas por não mais que 20 dias. Há casos em que a restrição mais radical é de apenas duas semanas.

O Brasil está perdendo mais de 4.000 vidas em 24 horas, e a Anajure está considerando isso, esse período de duas semanas, uma violação do direito à liberdade religiosa. Não preciso dizer que não há (ao menos com destaque) um único caso de violação de terreiro no Rio de Janeiro, por exemplo (e aconteceram vários neste último ano).

Quando a Anajure repete, para todos os casos, indistintamente, que "o nosso ordenamento jurídico confere robusta proteção às manifestações de religiosidade, assegurando a realização de cerimônias religiosas e afastando ingerências estatais", ela está reafirmando que a cerimônia é mais importante que a vida. Isso é mero fundamentalismo, nada de religião, muito menos de Evangelho.

Fundamentalistas reformados X (Neo)pentecostais

A única distinção real entre fundamentalistas reformados e (neo)pentecostais é como um enxerga o outro. Tradicionalmente, conservadores reformados veem a si mesmos como a "teologia mais pura", refinada, os ilustrados (pode ler "donos da verdade"), uma elite teológica que, no mundo inteiro, arrasta um legado racista e senso de superioridade.

Com este olhar, fundamentalistas reformados olham para pentecostais como gente de teologia "pobre", sem consistência teológica (qualquer um pode virar pastor), que cresce nas periferias justamente porque lá estão as pessoas mais pobres, pretas e, na percepção deles, manipuláveis e sem conhecimento bíblico para resistir aos "falsos pastores".

Fundamentalistas neopentecostais e pentecostais, por sua vez, veem a si mesmos como "defensores dos valores morais", querem se impor como os verdadeiros representantes dos evangélicos, devido os seus megatemplos e quantidade de membros.

Desprezam os reformados como gente que tem muito "estudo", muito "conhecimento", mas não têm representatividade, não estão perto das pessoas simples, do povo, não estão nas favelas, nos morros, nos presídios. As lideranças fundamentalistas (neo)pentecostais zombam da falta de influência que reformados teriam junto ao poder.

Mas, quando o projeto é morte e desprezo pela vida que não se encaixa no seu próprio interesse, não se engane, eles estão abraçados. Este fundamentalismo reformado e (neo)pentecostal não possuem qualquer compromisso com a vida. É por isso que a Anajure é capaz de ignorar a morte de mais de 4.000 pessoas em 24 horas e continuar sua campanha por templos abertos a todo custo.

Essa gente vai continuar caçando comunistas, marxistas, "ideologia de gênero", tratando o aborto como se fosse a única pauta importante no país, condenando a homossexualidade, acusando "cristofobia" e fingindo defender a família.

O fundamentalismo é assim, seja com dez mortos em 24 horas, seja com 5.000.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL