PUBLICIDADE
Topo

Ronilso Pacheco

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Caso Kathlen: PM do Rio age para proteger vidas brancas como as do Leblon

Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

Colunista do UOL

10/06/2021 04h00

Kathlen Romeu morreu aos 24 anos e o filho dela nem conheceu o mundo. Ambos foram interditados pela Polícia Militar. Definitivamente, a PM é parte do problema, e não é um policial "sério", "honesto" e "honrado" que vai mudar isso.

A instituição Polícia Militar, tal qual nós temos, é prejudicial para uma parcela da sociedade brasileira. Ela é racista, autoritária, violenta, presunçosa, ameaçadora, controladora, abusiva, constrangedora, vingativa, impessoal, fria.

Ela é prejudicial inclusive para o próprio policial, pois os discursos ultraconservadores que chamam os policiais de "nossos heróis" apenas ajudam a manter esses homens e mulheres em condições precárias de trabalho, expostos a violências cruéis, mal remunerados e sem um suporte digno do Estado

"Se a PM acabar, a cidade vira um caos generalizado", dizem alguns. É verdade. Mas um caos generalizado afetaria toda a cidade, e isso nos igualaria. Soluções seriam buscadas porque estaríamos todas e todos debaixo do mesmo caos.

Mas a verdade é que não ver o caos generalizado por causa da ausência da polícia parece ser um privilégio que a favela não tem.

O que a PM tem feito é manter o caos —as mortes, o abuso de autoridade, a humilhação, a invasão de casas, o tapa na cara, o assassinato e a cena do crime adulterada— em uma única parte da cidade, para que uma outra parte durma em paz. E, é bom dizer, muitos homens e mulheres policiais vivem nessa parte da cidade onde o caos e o medo não deixa ninguém dormir em paz.

Para a zona sul do Rio se sentir em paz e segura, para jovens grávidas e brancas da Ataulfo de Paiva poderem realizar o seu parto humanizado sem correrem o risco de uma operação policial que lhes tire a vida, a Polícia Militar concentra a violência, o abuso de poder e o desrespeito nos lugares onde a vida parece ter menos valor e importância. Ela existe para que estas vidas brancas possam existir, e as vidas negras... tanto faz

O movimento pró-família e pró-vida no Brasil está neste momento monitorando e mapeando todas as tentativas de aborto e todas as adoções de crianças por casais gays. Enquanto isso, a morte da Kathlen é ignorada. Nem nota, nem repúdio, nem oração.

O que são então estas organizações pró-vida e pró-família? Braços moralistas e doentios de uma rede de conivência com a morte de gente pobre e preta.

Quem mora no Rio de Janeiro sabe que a morte de Kathlen e a comoção causada por ela vai durar até a próxima morte. Não há nada no Rio hoje que ameace mais as famílias da favela e da periferia do que a própria Polícia Militar.

Querem ser pró-família? Sejam anti-PM e suas operações, na maneira como são conduzidas.

De um lado do túnel Rebouças, as operações seriam inconcebíveis. Do outro lado, elas são normalizadas e às vezes até vistas como sucesso, mesmo com a morte de uma Kathlen e seu filho no ventre. É vergonhoso e humilhante que isto seja chamado de política de segurança pública.

Vocês, na zona sul, saibam que a instituição Policia Militar existe para proteger vocês. A PM garante que seus filhos cresçam, sonhem, casem, multipliquem, sejam plenos, enquanto mantém a parte preta da cidade sob o medo e a sorte

Quanto a nós, negros e negras, a favela, a periferia, incluindo os jovens policiais, talvez os nossos jovens cresçam, sonhem, casem, se multipliquem e sejam plenos. Talvez nossas crianças nasçam. Talvez não. Infelizmente, a da Kathlen não nascerá e nem ela sobreviveu para recomeçar.

Um conselho: saiam da indignação e digam o quanto essa forma de ser sociedade no Rio de Janeiro é impossível.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL