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Bolsonaro orientou ignorar a imprensa, 'esses pulhas', na reunião de abril

Reunião ministerial 22 de abril - Marcos Corrêa/PR
Reunião ministerial 22 de abril Imagem: Marcos Corrêa/PR
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

15/05/2020 10h37Atualizada em 23/05/2020 16h59

Resumo da notícia

  • Na mesma reunião, o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, disse que tomará "um litro de hidroxicloroquina" caso seja contaminado pelo coronavírus
  • Ministro do Meio Ambiente reclamou de decisões do Judiciário e disse que pandemia seria uma oportunidade para governo aprovar MPs
  • Ministro da Educação fez comentário negativo sobre o "Partido Comunista chinês"

Na reunião ministerial do dia 22 de abril - cujas imagens foram recolhidas por ordem do STF no inquérito que apura as denúncias do ex-ministro Sérgio Moro -, o presidente Jair Bolsonaro orientou os ministros a ignorarem a imprensa, que chamou de "esses pulhas", segundo fontes consultadas pela coluna.

No encontro, o presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, também criticou a imprensa por supostamente criar uma "histeria" com as notícias sobre pandemia. Ele disse que tomará "um litro de hidroxicloroquina" caso seja contaminado pelo novo coronavírus.

Segundo as fontes ouvidas pela coluna, Bolsonaro deu a declaração no momento em que orientava os ministros a não levarem em conta, ao elaborar suas medidas no contexto da pandemia o que a imprensa publica. Segundo os dicionários, pulha é alguém sem brio, sem caráter, sem distinção, um cafajeste ou velhaco

A reunião do dia 22 foi convocada no Palácio do Planalto por Bolsonaro para discutir o programa Pró-Brasil, que havia sido lançado pelo ministro da Casa Civil, Braga Netto, no contexto do enfrentamento da crise econômica gerada pela pandemia do novo coronavírus.

Bolsonaro falou pouco na reunião, entre quatro e cinco vezes. A ideia era que cada ministro e representante de empresa estatal fizesse uma curta exposição sobre que medidas estava tomando ou planejava tomar no contexto da pandemia.

Na hora de sua fala, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse que "odiava" a expressão "povos indígenas", conforme a coluna revelou nesta quinta-feira (14). Também fez uma menção negativa ao "Partido Comunista chinês".

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, reclamou de decisões do Judiciário contrários à pasta. Ele disse, conforme a coluna apurou, que a pandemia seria uma oportunidade para o governo aprovar o que entendia ser necessário, como "Medidas Provisórias", pois atualmente tudo o que o governo fazia "toma pau no Judiciário".

A coluna apurou que reclamações contra decisões judiciais foram uma constante ao longo de toda a reunião.

Na hora de sua fala, Sérgio Moro foi lacônico e agradeceu a preocupação externada por colegas sobre o enfrentamento à corrupção.

A coluna procurou o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, e o ministro Ricardo Salles, por meio das assessorias de imprensa do banco e do ministério, mas não houve uma resposta até o fechamento deste texto. O ministro da Educação foi procurado ainda na quinta-feira, também sem resposta. Caso as respostas sejam enviadas, este texto será atualizado.

Atualização: em 22 de maio, por decisão do ministro do STF Celso de Mello, foram liberados o vídeo e a transcrição da reunião ministerial do dia 22 de abril. De acordo com a transcrição oficial da Polícia Federal, que confirma as fontes ouvidas anteriormente pela coluna, o presidente Jair Bolsonaro disse o seguinte sobre a imprensa: "Pera um pouquinho, dá licença um pouquinho. A questão da imprensa. Eu acho que eu resumi hoje na frente do Palácio em vinte segundos: 'Eu não vou falar com vocês, porque vocês não deturpam, vocês inventam, e potencializam'. Tem que ser o papel de cada um, não pode um sair daqui no cantinho 'Ah, foi mais ou menos isso', não pode falar nada. Tem que ignorar esses caras, cem por cento. Senão a gente não, não vai para frente. A gente tá sendo pautado por esses pulhas, pô. O tempo todo jogando um contra o outro. Até a Teresa Cristina contra mim (ininteligível). Mas para jogar a Teresa Cristina ... jogam ela contra mim. O tempo todo, tá? Então se a gente puder falar zero com a imprensa é a saída".

De acordo com a transcrição, Pedro Guimarães, presidente da Caixa Econômica, disse o seguinte: "... pessoas na Caixa tiveram coronavírus. Dois fa ... faleceram, um na verdade com setenta anos, que já tava aposentado e outro. A pessoa é ... é ... eu chorei mais do que a pessoa, a mãe. É, uma pessoa em trinta mil que estão o dia inteiro. Eu já falei pra minha esposa: se tiver qualquer coisa vou lo ... tomar um litro de 'hidroclorixisquina', aquelas coisas todas. Então assim, eu acho que a gente tá, só o último ponto, num, numa questão de histeria coletiva. Quer dizer, eu posso ter trinta mil funcionários na Caixa, pagando sete milhões hoje, dois milhões na sex ... é, segunda. Ontem a gente abriu oitocentas agências, vamos abrir no sábado, no domingo, duas horas antes. Então o que que a imprensa quer? Que você pague e dane-se os funcionários da Caixa. Mas se morrer dois, Jornal Nacional."

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse o seguinte: "Presidente, eu tava assistindo atentamente a apresentação do colega, ministro Braga Neto, e ... na parte final ali na, no slide da, das questões transversais tá o Meio Ambiente, mas eu acho que o que eu vou dizer aqui sobre o meio ambiente se aplica a diversas outras matérias. Nós temos a possibilidade nesse momento que a atenção da imprensa tá voltada exclusiva ... quase que exclusivamente pro Covid, e daqui a pouco para a Amazônia, o general Mourão tem feito aí os trabalhos preparatórios para que a gente possa entrar nesse assunto da Amazônia um pouco mais calçado, mas não é isso que eu quero falar. A oportunidade que nós temos, que a imprensa não tá ... tá nos dando um pouco de alívio nos outros temas, é passar as reformas infralegais de desregulamentação, simplificação, todas as reformas que o mundo inteiro nessas viagens que se referiu o Onyx certamente cobrou dele, cobrou do Paulo ..... cobrou da Teresa, cobrou do Tarcísio, cobrou de todo mundo, da ... da segurança jurídica, da previsibilidade, da simplificação, essa ... grande parte dessa matéria ela se dá em portarias e norma dos ministérios que aqui estão, inclusive o de Meio Ambiente. E que são muito difíceis, e nesse aspecto eu acho que o Meio Ambiente é o mais difícil, de passar qualquer mudança infralegal em termos de infraestru ... e ... é ... instrução normativa e portaria, porque tudo que a gente faz é pau no Judiciário, no dia seguinte. Então pra isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de Covid e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De IPHAN, de Ministério da Agricultura, de Ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo. Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação regulam ... é de regulatório que nós precisamos, em todos os aspectos."

Rubens Valente