PUBLICIDADE
Topo

Rubens Valente

Opinião: O latino Eduardo Bolsonaro enlameia latinos que vão viver nos EUA

Eduardo Bolsonaro e o policial civil de SP Carlos Henrique Mendes Navas - Facebook
Eduardo Bolsonaro e o policial civil de SP Carlos Henrique Mendes Navas Imagem: Facebook
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

22/11/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Deputado federal disse, em vídeo, que o latino-americano, quando chega aos Estados Unidos, "começa a seguir a lei" por causa da "certeza de punição"
  • Eduardo Bolsonaro gravou live em empresa de Miami que atua na exportação de armamentos para o Brasil e é vinculada a um policial civil de São Paulo
  • Especialista em segurança pública diz que é falácia associar mais armas a menos violência e equivocado comparar realidades diferentes de EUA e Brasil

"E aqui tem latino pra tudo quanto é lado, né? O latino, ele pisa aqui no solo americano, ele começa a seguir a lei. Impressionante, impressionante. Um sinal de que como que a certeza da punição faz o cara andar na linha, né? Isso também daí é... Tem que ser, tem que ser... Exaltado."

Esse é um dos filhos do presidente do maior país da América Latina, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), fazendo uma análise criminológica sobre os latino-americanos que se mudam para os Estados Unidos para tentar um futuro. Pela sua lógica leviana, todo latino-americano que vai morar nos EUA era um descumpridor de leis em seu país de origem - não "andava na linha".

Estima-se que 1 milhão de brasileiros more nos EUA. Nas eleições de 2018, Jair Bolsonaro venceu com folga em todas as dez cidades dos EUA que tiveram votação. Em Miami, obteve mais de 80% dos votos válidos.

O vídeo foi postado no dia 9 de novembro pelo deputado na sua conta no Instagram, seguida por 3,3 milhões de pessoas, visto mais de 544 mil vezes e comentado mais de 4 mil vezes.

A gravação foi feita pelo parlamentar durante uma visita a uma loja de exportação de armas de fogo para o Brasil denominada Tactical Solutions Inc., sediada na Florida (EUA). Exibindo fuzis, espingardas e carabinas, o parlamentar exaltou a ideia de armar os brasileiros.

Ele disse que o governo do seu pai flexibilizou regras para permitir aos atiradores a posse e uso de armas até então proibidas, como fuzis de determinado calibre. "Com o governo Bolsonaro, o atirador agora tem a possibilidade de ter um fuzil 556. Então a fabricante nacional, a gente sabe que a Taurus, a CBC, dominam o mercado brasileiro, se Deus quiser a gente vai ter Springfield, Sig Sauer no Brasil."

Eduardo associou mais armamento nas mãos da população à redução dos índices de criminalidade - relação contestada por inúmeros especialistas em segurança pública -, o que, segundo ele, explicaria menos crimes nos EUA.

"A gente vai chegar a esse nível de liberdade. O pessoal fica falando 'ah, mas tem tiroteio em escola'. Eu falei, 'filho, Rio de Janeiro é diário, todo dia que o PM acorda lá no Rio ele sabe que ele vai, dependendo da área de atuação dele, ele vai trocar tiro'. Aqui nos Estados Unidos a taxa de homicídios gira, ou às vezes nem chega, a quatro homicídios para cada 100 mil habitantes. Enquanto que no Brasil, até pouco tempo atrás, a média nacional estava perto de 30. Se fosse olhar as cidades do Nordeste, Natal, Pará, aí você vai entrar 70, 60 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes."

Além de o Pará não ser uma cidade nem estar localizado no Nordeste, o número apresentado por Eduardo aos seus seguidores sobre os EUA é equivocado. A taxa de homicídio nos EUA foi de 5 por 100 mil habitantes em 2018, último dado disponível para consulta na base do UNODOC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes), e não 4. Um índice de 4,4 foi registrado há seis anos, em 2014.

Entretanto, a taxa varia de região para região nos EUA. Em Chicago, por exemplo, ela é mais do que o dobro da registrada no Estado de São Paulo, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Assassinatos de massa nos EUA, com atiradores portando fuzis de assalto vendidos em supermercados, são uma das maiores chagas e vergonhas da segurança pública norte-americana ao atingir escolas, cinemas, locais de compra e de trabalho. Em 2019, o jornal "USA Today" contabilizou 112 mortos em ataques do gênero somente até agosto. Em 2017, 181 pessoas foram assassinadas em casos semelhantes.

Firma de exportação de armamentos é presidida por policial civil de SP

No vídeo, Eduardo Bolsonaro estimula a exportação de armas dos EUA para o Brasil. Logo no começo da live, Eduardo tem o seguinte diálogo com o seu anfitrião na empresa, o policial civil de SP Carlos Henrique Mendes Navas, o "Caíque":

"Fala pessoal, tamo aqui nos Estados Unidos, em Miami, a gente está visitando aqui uma loja, uma exportadora, importadora de armas, que é de um brasileiro, né, policial civil, confere, Caíque?

"Confere."

"Qual Estado?"

"Flórida, Tactical Solutions Inc."

"Não, policial civil lá no Brasil em qual Estado? São Paulo mesmo, né?"

"São Paulo, Polícia Civil do Estado de São Paulo."

"Na verdade, o que que é isso aqui, é sua empresa, como é que funciona?"

"Isso aqui é uma empresa, é uma exportadora de armas de fogo, a gente manda essas armas para o Brasil. Muitos dos rifles na plataforma AR-15 e AR-10, semi-automático."

O investigador de polícia de primeira classe Carlos Navas está na Polícia Civil paulista há 27 anos. De acordo com os documentos arquivados na Divisão de Corporações do Estado da Flórida, o equivalente à Junta Comercial no Brasil, Navas passou, em 2019, a ser o presidente da Tactical Solutions Inc., empresa registrada em Miami em 2017. Nos dois primeiros anos, ele aparece nos papéis como vice-presidente da empresa.

Localizado pelo UOL, Navas afirmou, por videoconferência, que é um esportista, consultor e especialista nos temas de armamento e tiro e que a empresa pertence à sua mulher.

"Eu assessoro, eu ajudo, eu dou minha opinião, eu sou um nome do armamento de tiro mundial, então as pessoas me pedem uma opinião e eu ajudo. Se você me aborda sobre algum tema que eu posso ajudar, vou ajudar. Quem trabalha na empresa é a minha esposa, eu ajudo, faço uma orientação, uma consultoria. Eu não lido com isso [documentação da empresa], lido com armamento e tiro. Eu entendo de gatilho, se não tiver um gatilho, eu não sei te responder. Atiro desde os sete anos de idade. Minha vida é voltada ao esporte, à segurança e ao armamento e tiro", disse Navas.

O policial é conhecido como um campeão de tiro de precisão, a longa distância, em dezenas de competições nacionais e internacionais. Navas disse que ao longo da carreira venceu cerca de 120 disputas nacionais e outras cem fora do Brasil.

Filho de um militar do Exército que depois se tornou policial federal e policial civil, Navas afirmou que fez seus primeiros disparos aos sete anos de idade. Especializou-se como atirador sniper, tendo atuado em operações da Polícia Civil de SP de combate ao crime pelo GOE (Grupo de Operações Especiais). Em razão de sua atividade policial, ele disse que chegou a ser ameaçado por integrantes do grupo criminoso PCC.

Navas disse que nos últimos 14 meses esteve afastado da Polícia Civil de SP para tratamento de um grave problema de saúde e que atualmente trabalha para solicitar sua aposentadoria.

"[Passei por] três cirurgias em 14 meses, quase morri nas últimas duas. Tive uma septicemia [infecção] generalizada, quase literalmente morri por duas vezes. Não ando, não corro, estou em convalescença. Por isso que tento ajudar essa empresa de alguma maneira porque é uma maneira de sustentar [o tratamento]. É uma luta literalmente de sobrevivência o que estou passando nos últimos tempos", disse o policial.

Navas, um latino-americano que vive "temporadas" nos EUA, relativizou a declaração que Eduardo Bolsonaro deu na sua loja sobre os latinos.

"Eu acho que o latino tem que servir de exemplo, você tem que ser exemplo em todo lugar, seja no Brasil, seja fora do Brasil. E a lei está aí para todo mundo, a lei tem que ser seguida. Não adianta você não seguir a lei no seu país e seguir a lei em outro país. Eu acho que foi mais isso que ele [Eduardo] quis dizer, a questão de educação, a lei se segue em qualquer país, em qualquer lugar, está aí para ser seguida."

Navas se diz "100%" apoiador de Jair Bolsonaro, mas só agora conheceu Eduardo. O deputado teria chegado a ele após procurar informações sobre armamento e algum conhecido, ou um usuário de redes sociais, indicou a ele a empresa de Miami.

Relação entre mais armas e menos crimes é uma falácia, aponta especialista

A suposta relação direta entre mais armamentos e menos homicídios - tal qual defendida pelo deputado Eduardo Bolsonaro em sua live - é rebatida pelo cientista social e doutor em sociologia Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

"Essa é uma falácia que os armamentistas adoram utilizar, citando os EUA como parâmetro. Só que são realidades muito diferentes. Chicago, por exemplo, tem taxas de homicídio maiores que as de São Paulo. Em contextos violentos, você tem que pensar nos fatores de prevenção. Tem que trabalhar com jovens, circuitos de drogas e armas de fogo. Nos EUA, nos lugares onde há mais rigor no controle dos armamentos, as taxas de homicídio são menores. Em contextos como o do Brasil, falar em arma de fogo é incentivar uma série de situações que poderiam ser resolvidas sem o emprego de arma e que passam a ser resolvidas com arma de fogo. A maior parte dos feminicídios, por exemplo, é cometida sem armas de fogo."

"Tem que pensar na chave da segurança pública. O Eduardo Bolsonaro usa a chave ideológica. O governo do pai dele não está preocupado em ter ou não ter arma [para a população], ele está desmontando, por exemplo, toda a possibilidade de rastreabilidade das armas usadas em crimes", disse Lima.

Secretaria não comenta empresa de armas de policial

O UOL fez uma série de indagações à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo sobre a empresa de Miami relacionada ao policial Carlos Navas, mas não houve comentários sobre o ponto. A coluna quis saber se o órgão tinha conhecimento da empresa de exportação e qual a legalidade da participação de Navas na empresa, mas não houve resposta sobre esses pontos.

A SSP respondeu: "A Polícia Civil do Estado de São Paulo informa que está em curso na Corregedoria da instituição um procedimento administrativo em desfavor do referido agente policial, que, atualmente, está afastado das suas funções". A SSP não explicou a razão desse procedimento.

Navas afirmou que tomou conhecimento do procedimento administrativo apenas no ato do contato do UOL e que agora vai buscar informações a respeito. Disse que nunca foi intimado sobre o assunto, afirmou não saber o motivo nem dizer se o procedimento está relacionado ao seu afastamento para tratamento de saúde. Navas disse que a empresa Tactical Solutions cumpre toda a legislação norte-americana

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.