PUBLICIDADE
Topo

CPMI das Fake News corre risco de não concluir investigações, diz relatora

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Colunista do UOL

19/02/2020 04h00

A deputada Lídice da Mata (PSB-BA) é a relatora da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito em que deputados e senadores investigam a existência de grupos organizados para produção e difusão de fake news nas redes socias.

Em entrevista ao UOL nesta terça-feira, no Cafezinho da Câmara, Lídice da Mata revelou estar extremamente preocupada com o futuro da colegiado e suas investigações.

O prazo de funcionamento da comissão expira no próximo dia 13 de abril. Segundo a deputada, se não houver adiamento, não haverá tempo hábil para concluir as investigações.

"O relatório terá que ser meramente recomendativo, com propostas de legislação. Mas vai avançar pouco a respeito dos disparos em massa de fake news", prevê a relatora.

Lídice também está preocupada com o incentivo que o presidente Jair Bolsonaro vem dando a seus aliados para agredir jornalistas.

A relatora da CPMI ficou particularmente escandalizada com os insultos de Bolsonaro de caráter sexual contra a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo.

Segundo Lídice, Bolsonaro usa "uma linguagem simbólica extremamente perversa e estimulante do desrespeito".

O presidente declarou em tom jocoso, para uma claque de bolsonaristas: "Ela queria um furo. Ela queria dar um furo [risos] a qualquer preço contra mim"

A deputada diz que está sofrendo pressões e agressões nas redes sociais, especialmente desde que apresentou queixa-crime ao Ministério Público contra Hans River, um ex-funcionário da empresa Yacows, especializada em disparos em massa de mensagens de Whatsapp.

Em depoimento à CPMI, River insinuou, sem apresentar qualquer evidência, que a repórter teria tentado seduzi-lo para obter informações e forjar publicações. Acabou desmascarado. Mas os bolsonaristas, incentivados pelo presidente e seus filhos, continuam dando asas à narrativa.

Para conseguir adiar a CPMI é necessário o apoio formal de 1/3 dos 513 deputados e dos 81 senadores. Lídice diz que não há até agora nenhum líder ajudando a colher assinaturas.

Há grupos que não querem a CPMI apenas porque querem continuar produzindo e distribuindo fake news. Mas há também aqueles que temem ser atingidos pelos levantamentos de sigilo que venham a ocorrer nas investigações. E até os que temem que uma CPMI desse tipo acabe limitando a liberdade de expressão nas redes sociais.

Tudo junto e misturado, o risco é grande de a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito não dar em nada.