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"Se Bolsonaro perder condição de governar, o que fazer? Muda", diz FHC

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

e Felipe Amorim do UOL em Brasília

03/04/2020 12h58Atualizada em 04/04/2020 00h30

O ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso afirmou hoje, em entrevista para o colunista Tales Faria, do UOL, que falta capacidade de liderança ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no momento em que o Brasil enfrenta a crise mundial da pandemia do coronavírus.

"Liderar um país não é dar ordens ao país, é fazer com que as pessoas sigam junto com você", disse FHC.

"Não é uma gripezinha, tem que dizer a verdade", ele afirma.

No entanto, FHC se mostrou cauteloso ao comentar a possibilidade da abertura de um processo de impeachment.

"Eu sempre fui muito cuidadoso em matérias de tirar quem teve o voto. É uma situação delicada. Eu acho que no caso atual, não é de se buscar motivos para criminalizar. Eu não sei se ele ouve as pessoas, se ele tem essa abertura. Eu sou institucional, enquanto ele for presidente ele é o presidente. E se sair tem que ver o vice. Não sei se já chegou o momento para isso", disse.

Para o ex-presidente, o importante agora é que Bolsonaro acalme o povo. Mas ele não se furtou a comentar a possibilidade de uma renúncia.

"Importante seria que o Bolsonaro entendesse o papel dele e acalmasse o povo. Eu acho que [uma renúncia] vai complicar mais ainda um quadro já muito difícil. Quando você renuncia? Quando não tem mais condições de governar. Não acho que seja o caso. Mas sou realista, se tiver um momento que chegar, ele pode renunciar, aí o vice assume", afirmou.

"Se ele perder a condição de governar, o que se vai fazer? Muda" diz FHC.

O ex-presidente elogiou o vice-presidente Hamilton Mourão e disse defender a postura "institucional" de que na ausência do presidente, quem deve assumir é seu vice.

"Eu sou institucional. Enquanto ele for o presidente, ele é o presidente. Se houver uma situação em que ele perca as condições de governar, vamos ver o que acontece", disse FHC.

"E a meu ver, tem que ser o vice-presidente. Goste ou não goste. Até tenho uma simpatia pelo vice-presidente. O conheci em Harvard, ele é uma pessoa normal. É melhor ter alguém normal no comando do que alguém que a toda hora perde a rédea", ele afirmou.

"Mas não sei se já chegou momento para isso. O bom para o Brasil seria que o presidente Bolsonaro entendesse o papel dele e acalmasse um pouco, não fizesse gestos bruscos que ponham o país em suspenso", defendeu o ex-presidente.

Para o ex-presidente, Bolsonaro tem uma visão tosca do que representa seu cargo. O comentário faz referência a declarações recentes de Bolsonaro de que tinha a caneta na mão para fazer decretos contrários ao isolamento social proposto para controlar a disseminação do novo coronavírus no Brasil.

"Ele tem um raciocínio que tem todos os poderes na mão, não é assim...Acho que é uma visão um pouco tosca do que seja a função de um presidente. Ele já tem aprendido um pouco, toda hora ele diz uma coisa ríspida, no outro dia ele se emenda. Há muita gente que prefere: minha vontade é a lei, não é lei", disse Fernando Henrique.

Lula e militares

Sobre o contexto político brasileiro, FHC diz acreditar que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não tem mais força para se eleger e que ele "matou" a esquerda ao impor sua liderança a esse campo político.

"Eu acho, e vou dizer uma coisa que me abrange também, o Lula passou, nós passamos. Essa época já mudou. O que o Lula representou, não representa mais", afirmou o ex-presidente.

Embora aponte a falta de lideranças políticas no cenário atual, FHC não vê disposição nos militares para participar da disputa pelo poder e disse não acreditar na ameaça de uma intervenção promovida pelos quartéis.

"Eu não creio [em risco de intervenção]", disse. "O Exército brasileiro se transformou muito também, não é mais o Exército de 1964, é outra coisa. Tem mais noção das dificuldades, do papel que tem que exercer, dos limites em que tem que atuar", ele afirma.

"Eu acho que eles têm seguido a Constituição e tomara que seja assim até o fim. O que está faltando não é militar, é comando político, liderança política", afirma FHC.

Vírus e democracia

No plano internacional, o ex-presidente projeta um mundo pós-coronavírus com mais poder à China e países não ocidentais.

"Então nós vamos ter um mundo em que forças que não são ocidentais vão ter mais peso que as forças ocidentais e o Ocidente está mais preso às ideias de liberdade", disse.

"É bom, é mau? Para quem gosta da liberdade e do individualismo, não. Agora, o povo não quer nem saber o que é liberdade e individualismo, quer saber se tem emprego, tem comida, tem transporte, tem saúde, e se eles derem isso, vão nos dar um banho", afirmou FHC.

Fernando Henrique governou o pais entre 1995 e 2002 e geriu o Plano Real, que estabilizou a economia, quando ministro da Fazenda de Itamar Franco.

Hoje ele é membro da Academia Brasileira de letras e um dos "membros eméritos" do The Elders (Os Anciãos), um grupo fundado pelo ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela que reúne personalidades de todo o mundo —como os ex-presidente dos EUA Jimmy Carter, o prêmio Nobel da Paz Desmond Tutu e o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan— "para enfrentar alguns dos desafios de liderança, construção da paz, desigualdade, exclusão e injustiça".