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Bolsonaro fez da cloroquina uma armadilha contra seus opositores

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Colunista do UOL

09/04/2020 14h25

Se você for diagnosticado com coronavírus vai querer ou não tomar a tal da cloroquina?

Provavelmente sim. Qualquer um de nós.

Mas se os sintomas da doença não forem pronunciados, seu médico talvez diga que ainda não é o momento. Que o medicamento tem prós e contras, efeitos colaterais que devem ser pesados antes de se decidir por sua utilização.

Aliás, é assim que ocorre com quase todos os remédios. Antes de ser ministrado, é feita uma avaliação SE, para aquele paciente, trará mais riscos do que benefícios. Ou não...

Mas Bolsonaro transformou a cloroquina num discurso político e simplório: o remédio é a cura que todos esperávamos.

E a esquerda caiu na armadilha. Aceitou discutir o assunto dessa maneira simplista. Deixou ficar para o povão que Bolsonaro é a favor da cloroquina e seus opositores, contra.

Ninguém é contra um remédio. Eu, particularmente, creio que a cloroquina tenha algum efeito. Mas o que eu acredito pouco importa. Os cientistas é que darão a palavra final.

Muito provavelmente na linha de que sim, deve ser usada em determinadas situações, com determinados cuidados. Mas não funciona como uma vacina, que previne a doença, nem como um remédio infalível. E ainda tem riscos...

Da forma como está a discussão, Bolsonaro é o pai da criança. O pai da cloroquina. E ele reforçou isso no seu pronunciamento em rede de rádio e TV, nesta quarta-feira.

Como há pouca probabilidade de que os cientistas venham a concluir que a cloroquina é absolutamente inócua (afinal há médicos respeitáveis que já tomaram e receitaram) a batalha estará vencida por Bolsonaro.

A batalha da cloroquina. Porque outras batalhas ele perdeu nessa crise do coronavírus.

Perdeu a queda de braço com o subordinado ministro da Saúde, Henrique Mandetta, mesmo que venha a demiti-lo mais adiante. Mandetta cresceu na crise e Bolsonaro encolheu politicamente.

Perdeu a autoridade sobre seus ministros militares, com quem vinha falando grosso entre as paredes do Planalto antes da crise. E, agora, precisou deles para pelo menos manter as aparências do poder, enquanto recua do discurso de que a Covid-19 se tratava de "uma gripezinha".

Perdeu a plena confiança dos ministros considerados mais importantes de seu governo: o popular Sérgio Moro, da Justiça, e o Posto Ipiranga da economia, Paulo Guedes.

Eles não embarcaram na onda do presidente contra Mandetta e viram ali o risco de o chefe tratá-los da mesma forma.

Enfim, como em toda guerra, ganham-se algumas batalhas e perdem-se outras.