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Paulo Guedes transformou reformas em briga pessoal com Rodrigo Maia

O ministro da Economia, Paulo Guedes, durante anúncio da prorrogação do auxílio emergencial - Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
O ministro da Economia, Paulo Guedes, durante anúncio da prorrogação do auxílio emergencial Imagem: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

21/09/2020 15h35Atualizada em 21/09/2020 15h40

O ministro da Economia, Paulo Guedes, tem dado a entender a líderes de partidos aliados que não gostaria de ver o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), como autor dos próximos projetos de reforma econômica aprovados pelo Congresso.

Os comentários ocorreram durante negociações da reforma tributária. Por conta dessa questão pessoal, Guedes tem confundido o processo de reformas no Congresso mais do que ajudado a avançar.

Ele, na verdade, não gosta do fato de Maia ser considerado o padrinho da proposta de emenda constitucional número 45, a PEC 45, em tramitação na Câmara.

A comissão especial da reforma tributária está discutindo um projeto final com base na PEC 45, da Câmara, e na PEC 110, originária do Senado, mas que tem como verdadeiro autor o ex-deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR).

Guedes enviou ao Congresso, em nome do governo, não uma proposta de reforma, mas apenas um projeto de unificação de dois impostos, o PIS (Programa de Integração Social) e a Cofins Contribuição para Financiamento da Seguridade Social).

Ele ameaça enviar ainda a proposta de criação de algo como um imposto sobre movimentações financeiras digitais. A ideia é recebida no Congresso e pelos agentes do mercado como uma recriação da CPMF.

O ministro tem cobrado da base parlamentar do governo que o projeto final da Comissão da Reforma Tributária não saia com o carimbo da PEC 45, de autoria do líder do MDB na Câmara, Baleia Rossi (SP). O texto foi elaborado a pedido de Rodrigo Maia sobre um modelo do economista Bernard Appy, diretor do Centro de Cidadania Fiscal.

Resumidamente a PEC 45 defende que cinco impostos sejam substituídos por apenas um, o IBS, Imposto sobre Bens e Serviços.

Guedes não gosta do fato de Maia ter sido apontado como o principal responsável pela aprovação da reforma da Previdência, no ano passado, numa articulação com o atual ministro do Desenvolvimento Regional, Rogerio Marinho.

O ministro é outro que está no centro das reclamações de Paulo Guedes junto ao presidente Jair Bolsonaro.

"Ciúme do homem é terrível", disse ao blog um líder aliado ao governo, sobre o comportamento do ministro da Economia.

O fato é que, ao transformar as articulações políticas do governo em briga pessoal, o ministro embaralha a tramitação no Congresso de projetos de interesse do governo.

Líderes avaliam que, no final do ano, há risco de não ser aprovada reforma alguma, nem mesmo a regulamentação do teto de gastos ou mesmo um projeto de política social em substituição ao auxílio emergencial de R$ 600 da pandemia.

Isolado, Guedes pode até não conseguir evitar o estouro do teto constitucional. Para isso, precisará que sejam aprovados temas difíceis, como mais cortes na Previdência e nos gastos com pessoal do serviço público, nos programas sociais como seguro defeso e abonos.

A nova CPMF, apresentada pelo ministro como "uma solução", tributa em R$ 120 milhões a classe média, segundo os políticos. Rodrigo Maia já disse que não permite que entre na pauta enquanto ele presidir a Câmara.

A proposta de desoneração da folha de pagamentos, não necessariamente gera empregos. Foi feita no governo Dilma Rousseff e as empresas não repassaram os ganhos. Usaram para cobrir o passivo.

No Congresso, Guedes é visto como um ministro completamente isolado. Chega a ser comparado com aquela cena do filme "A queda", em que o ex-ditador alemão Adolf Hitler conversa com seus assessores sobre a guerra como se anda tivesse poder. Sem ver que já estava derrotado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL