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Tales Faria

No seu livro, Obama vingou-se da falta de reciprocidade de Lula

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Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

18/11/2020 17h51

É mais ou menos como naquele poema de Carlos Drummond de Andrade:

Bill Clinton amava Fernando Henrique Cardoso, que não gostava de George W. Bush, que se deu muito bem com Lula, que foi bem recebido por Obama, mas não retribuiu o carinho. Agora o ex-presidente dos EUA se vingou.

Barack Obama acaba de lançar seu livro de memórias com a primeira parte de sua passagem pela Casa Branca. Relembrou a famosa frase com que brindou o então então presidente do Brasil numa reunião do G-20. Apontando para Lula disse: "Esse é o cara".

O Brasil estava na moda em 2009, como um dos países que melhor se saíra da crise econômica mundial de 2008. A nova classe média, em ascensão; o desemprego, em níveis cada vez menores; e o Bolsa Família surpreendendo o mundo.

Mas Lula, que vinha de uma relação muito boa com o ex-presidente norte-americano George W. Bush, não correspondeu aos afagos de Obama.

O presidente brasileiro centrou a nossa política externa na aproximação com a China e a Rússia, o fortalecimento de blocos como o BRICs e o Mercosul, e na abertura de novos mercados que não os EStados Unidos. Além de uma forte adesão à politica climática de controle internacional do efeito estufa, contra os interesses de setores do empresariado dos EUA.

Agora Obama vingou-se: carimbou no livro e no cenário mundial, para a posteridade, que já naquela época havia "boatos" dando conta de que Lula seria uma espécie de chefão de uma máfia política brasileira que movimentava "bilhões". Segundo ele, uma máfia semelhante à que dominou o Partido Democrata em Nova York por 200 anos até meados do século passado.

Obama, no entanto, não explicou no livro esses "boatos". Ficou parecendo se tratar de informações que teria recebido do Serviço Secreto de seu país.

Afinal, depois, no governo Dilma, Edward Snowden, o ex-agente da Agência de Segurança Nacional norte-americana (a NSA, na sigla em inglês), veio a público denunciar um esquema de espionagem dos EUA contra líderes mundiais, incluindo o Brasil.

Se Obama já sabia ou não dos casos que, depois, resultaram na Operação Lava Jato, isso ele não tratou no livro. Mas até hoje os petistas desconfiam de que Sergio Moro e Companhia foram alimentados pelas investigações dos norte-americanos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL