PUBLICIDADE
Topo

Tales Faria

Turistas de Búzios pagam a conta da guerra alimentada por Bolsonaro

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

17/12/2020 15h11

O que está acontecendo em Búzios (RJ) é o resultado da desordem institucional provocada pelo negacionismo do Planalto. Um juiz de primeira instância manda todos os turistas saírem da cidade em 72 horas; o prefeito que vinha tratando a pandemia de forma mais branda diz que vai recorrer; e o pobre do turista que pagou passagem, hotel e o escambau não sabe o que fazer.

Sabe onde nasceu esse problema? Em cima. Aqui em Brasília.

Veja as fotos da solenidade de ontem no Palácio do Planalto em que o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, sem máscara, anunciou um plano de intenções de vacinação para o país.

Um plano ainda obscuro e atrasado porque seu chefe, o presidente da República, não quer admitir o perigo da doença, não quis se antecipar na compra de vacinas e insiste até hoje que a solução para o problema é a cloroquina.

A propósito, Bolsonaro estava na solenidade, também sem máscara. Cumprimentando todo mundo com aperto de mãos. Acabou sendo repreendido pelo Zé Gotinha, que se negou a romper o protocolo de proteção contra o vírus.

Se o presidente abre guerra com a Justiça, acusando o Supremo Tribunal Federal de tirar-lhe o poder de mal gerir a pandemia, se ele diz que não vai se vacinar e pede para a população ir para a rua e faz apelo aos governadores para não decretar medidas de distanciamento social — como fez hoje em nova solenidade — é de se esperar que chefes de Executivo locais, prefeitos, como o de Búzios, também resolvam arrefecer nas medidas de controle da pandemia.

A pressão vem de cima. E aí o juiz de primeira instância reage com uma atitude drástica dessas: manda os turistas para fora da cidade.

O cidadão que se dane. Sempre que as instituições entram em crise de relacionamento quem se ferra é quem depende dessas instituições.

O que está ocorrendo em Búzios, em grau menor ou maior, já ocorreu em outras cidades do país.
Temos um presidente forçando o choque das instituições para não admitir, negar até o último momento a gravidade da pandemia.

Mais de 180 mil brasileiros já morreram, milhões adoeceram, sabe-se lá quantos sofreram com internações, intubações e outros males resultantes da Covid-19.

O presidente fala que quer evitar prejuízos financeiros para o país. Pode ser. Afinal, com tanta gente morta, a Previdência terá que pagar menos pensões. Não duvido que algum burocrata pense assim.

Mas os turistas de Búzios... Esses terão que arcar com seu prejuízo.